segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Paul Celan

Paul Celan (poeta romeno - 1920/1970)

O nome de nascimento de Celan era Paul Antschel. Oriundo de uma família judaica de língua alemã, foi vítima da perseguição nazi: o seu avô morreu num campo de concentração e ele próprio sobreviveu milagrosamente ao holocausto. Em 1948 foi viver em Paris, onde se estabeleceu definitivamente. As suas experiências traumáticas, assim como as dos seus companheiros de sofrimento, influenciaram profundamente sua obra lírica, impregnada de formalismo e de traços surrealistas. O poema Fuga da Morte, publicado na compilação Mohn und Gedächtnis (1952), é, do ponto de vista artístico, uma das mais importantes criações em língua alemã sobre o extermínio nazi dos judeus. A sua obra posterior, tomando como ponto de partida a colecção de poemas chamada Sprachgitter (1959), surpreende pela força das imagens literárias, nem sempre fáceis de decifrar. Celan suicidou-se em 1970.
Coração Inconstante

Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.
*

Sóis desfiados                                                   

Sóis desfiados
sobre o deserto cinzento-negro.
Um pensamento alto-
-como-árvore
capta o tom da luz: ainda
há canções para cantar do outro lado
dos homens.

Hans Zimmer

»Chevaliers de Sangreal«

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Igreja visigótica de Santa Comba de Bande, Galiza

 
1.Capela-mor com imagem de São Torcato e altar assente numa ara votiva romana. A entrada é feita através de um arco em ferradura tipicamente visigótico suportado por dois pares de colunas, sendo um par de origem romana com capitéis em estilo coríntio e outro par visigótico. A cúpula foi construída em ladrilho do tipo romano.
O tecto de capela-mor contém pinturas murais do século XVI.                                                                                        
2.Inscrição lateral na capela — em Bande, Galicia
                                                                          
 

Memorável G.K. Chesterton

de "Ortodoxia"
 
Há um céptico mais terrível ainda do que aquele que acredita que tudo começou na matéria. É possível encontrar o céptico que acredita que tudo começou em si mesmo. Este é o que duvida não da existência de anjos ou de demónios, mas da existência dos homens e das vacas. Para ele, os próprios amigos não passam de uma mitologia que sua mente arquitectou: foi ele quem criou o próprio pai e a própria mãe. Essa horrível fantasia tem em si qualquer coisa que a torna decisivamente atraente para o egoísmo, um tanto ou quanto místico, do mundo moderno. Aquele editor que pensava que certos homens iriam longe se acreditassem em si mesmos, aqueles que andam em busca do super-homem e vão procurá-lo no espelho, aqueles escritores que falam em imprimir a sua personalidade em vez de criarem vida para o mundo: todos esses homens estão, positivamente, a uma polegada de distância do mais terrível vácuo. E quando o benéfico mundo que nos cerca se tiver enegrecido como uma mentira, quando os amigos se esvaírem como fantasmas, quando os alicerces do mundo desmoronarem, quando o homem que não acredita em nada nem ninguém ficar sozinho no meio do seu pesadelo, ver-se-á escrita sobre ele, numa ironia vingadora, a grande legenda individualista. As estrelas serão apenas pontos na escuridão do seu cérebro, e a face de sua mãe não será mais do que um simples esboço traçado pelo lápis de um louco nas paredes da sua cela. E por sobre essa mesma cela estará escrita esta terrível verdade: Este acredita em si mesmo.

O esplendor da arquitectura islâmica (Irão e Turquia)

masjede shah - esfahan


Palácio Topkapi, Istambul

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

de Almeida Garrett

"As minhas Asas"


Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,                                 
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
  E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.

(Almeida Garrett - Flores sem Fruto)

Garcia da Orta - 450 anos da publicação dos "Colóquios dos Simples e drogas e cousas medicinais da Índia

                                                                 Garcia da Orta
 
 
                                                                  

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Por Daniel Proulx

LE RÔLE DE L’IMAGINATION DANS L’EXPÉRIENCE SPIRITUELLE D’IBN AL-ʿARABĪ ET DE JAKOB BÖHME
 
Henry Corbin a écrit qu’« un Maître Eckhart et un Jacob Boehme eussent parfaitement compris Ibn ʿArabî, et réciproquement.1 » Mais comment assurer ce dialogue et cette compréhension réciproque pressentie par Henry Corbin? Cette recherche porte essentiellement sur les conditions de possibilités de ce dialogue, puisque la comparaison entre Ibn al-ʿArabī et Böhme n’est encore qu’à ses balbutiements.
 
En choisissant le prisme de l’imagination, le but est double : pouvoir traiter de manière non réductrice les phénomènes spirituels en parcourant et analysant la logique spécifique de l’imagination ; et, sous l’égide de la hiérohistoire, explorer le rôle de l’imagination dans la métaphysique et l’éthique d’Ibn al-ʿArabī et de Böhme. Il s’agit donc d’essayer de lire Ibn al-ʿArabī et Böhme comme ils lisaient eux-mêmes le Livre révélé de leur tradition respective.
Au final, il appert que le théophanisme caractéristique tant de la métaphysique d’Ibn al- ʿArabī que de celle de Böhme est une riche terre d’accueil de l’imagination et de l’imaginal. Et que, si la comparaison strictu sensu entre Ibn al-ʿArabī et Böhme est impossible, l’esprit comparatif et transdisciplinaire de cette recherche, ainsi que la méthode phénoménologico-herméneutique, offrent de nouvelles avenues de réappropriation pour l’ensemble des phénomènes spirituels.
PRÉLUDE
Pro captu lectoris habent sua fata libelli. D’emblée, le lecteur consciencieux nourrit probablement une certaine suspicion par rapport à ce qu’annonce le titre de cette recherche. Le lecteur se demandera peut-être comment l’auteur considérera sérieusement deux auteurs aussi éloignés, et comment traitera-t-il concrètement de l’imagination dans un phénomène aussi mouvant que l’expérience spirituelle? Nous mettons en garde le lecteur voulant entreprendre cette quête avec nous du fait qu’il devra s’impliquer lui-même dans cette traversée et nous suggérons à celui qui ne veut qu’objectivement ou historiquement s’informer sur le sujet d’arrêter sa lecture dès à présent, car l’objectivité n’est pas le but visé de notre recherche. Cette recherche est sous le signe de deux distiques de l’Errant chérubinique qui s’énoncent comme suit : « L’âme est un cristal, la Déité est sa clarté; Le corps en lequel tu vis est leur enveloppe à tous les deux. » Et la conséquence métaphysique est que « Dieu ne vit pas sans moi. Je sais que Dieu sans moi ne peut vivre un moment ; Si je m’abîme, Il rend l’esprit de dénuement.»
Nous prendrons à rebours les approches usuellement utilisées. Nous proposons une « remontée vers l’origine » qui, lorsqu’elle s’achèvera, s’avérera être le point que nous avions laissé en faisant le premier pas. Sans entrer dans une logique circulaire, dans une logique fermée sur elle-même, dans un subjectivisme, nous prendrons autant en considération les données sensibles, qu’expérientielles de nos deux auteurs. Nous ordonnerons en constellation de symboles leurs pensées laissées sur le papier. Ce qui nous intéresse avant tout, c’est d’organiser et de rapprocher des matériaux pour qu’une autre lecture en soit possible. Une lecture qui exhausse la portée de ce qu’énoncent nos mystiques et qui puisse peut-être valider l’existence d’un ésotérisme abrahamique. Par l’intériorisation de nos auteurs, nous procédons à un travail similaire à celui qu’ils ont opéré à propos de leur livre révélé; c’est en ce sens que notre travail n’est pas objectif et que nous ne prouverons rien.
Tout au long de ce texte, de nombreux voyages seront mentionnés. La plupart ne relèvent pas du calendrier de l’histoire; ce sont des événements de l’âme, des événements dont les témoins et les témoignages ne peuvent être accrédités dans une cour de justice, mais dont la vérité et l’action s’expriment dans le vécu de l’âme, dans la vie de l’esprit, dans la spiritualité, une existence, dont la permanence transcende l’historicité, et ce faisant, fait apparaître une histoire real6 signalée par le terme de hiérohistoire.
 
Accompagné par l’ange de Henry Corbin, nous pensons que la vie spirituelle n’est pas dans l’humain, que c’est l’humain qui est en elle et c’est pour cela que nous nous permettons d’être une matrice s’imprégnant de son sujet. Ce travail s’annonce ainsi sous le signe d’une «herméneutique spirituelle» parce que la compréhension présentée de nos deux théosophes est elle-même corollaire de notre capacité d’accueil. Notre maîtrise a été envisagée comme une co-naissance, car elle n’est pas de son temps, mais « son temps propre », en cherchant à actualiser le savoir humain. La progression du savoir n’émane pas d’une création ex nihilo. La progression du savoir consiste à intégrer ou intérioriser la complexité des relations entre l’humain et sa réalité. En ce sens, nous ne clarifierons rien d’autre que notre propre intériorisation.
 
E para ler  fragmentos de Ibn Arabî, em inglês, seguir este link:   http://philosophiaperennisetuniversalis.blogspot.pt/2012/10/journey-to-lord-of-power.html#more

The New Andalusian Orchestra Ashkelon feat Haim Ohana

»Marakesh«,
 esplêndido!

O jardim

A vida é o resultado da união de contrários