sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Homero, Ilíada

Homero, Ilíada 6.146-9

Tais as gerações das folhas quais as dos homens.
As folhas, algumas o vento deita ao chão,
outras a seiva florescente produz,
e sobrevivem o tempo da Primavera;
assim as gerações dos homens,
umas nascem, outras morrem.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Alberto Manguel: As mil e umas viagens

Neverland

Alberto Manguel cartografou os seus "lugares imaginários" num dicionário, agora com edição portuguesa, na Tinta-da-China. Conheça aqui a obra

  Ao contrário de Portugal e de muitos outros países do mundo, na Ilha da Civilização o Chefe de Estado é uma figural consensual. Todos respeitam o seu silêncio e as suas decisões nunca geram contestação. Na realidade, nesta monarquia da Polinésia, avistada pela primeira vez pelo escritor Henry-Florent Delmotte, e hoje muito popular entre os leitores, tudo corre bem. Arborizada e montanhosa, a Ilha da Civilização é dirigida por um rei em madeira de jacarandá. Esta particularidade explica muito da unanimidade real, mas há mais. "O rei é operado de uma forma mecânica e pode assinar até 30 decretos de uma só vez; assina em inglês, numa bela caligrafia", descreve o autor de Voyage pittoresque et industriel. Já se vê que infinitas são as vantagens deste sistema, se calhar não muito distante daquele que certos países seguem quando se limitam a cumprir ordens externas. Por um lado, "evita todos os problemas suscitados pela sucessão e por mudanças de dinastia", esclarece Delmotte. Por outro, "significa também que os custos da Casa Real se elevam a apenas 50 francos por ano em óleo e lubrificante".Este é um dos muitos destinos que Alberto Manguel e Gianni Guadalupui compilaram no Dicionário de Lugares Imaginários, um magnífico guia de viagens por entre as mais fantásticas criações da imaginação humana. E se nem todas as paragens têm esta acutilância política - na Ilha da Civilização cada ministro tem um nó corredio à volta do pescoço e qualquer eleitor pode puxar a corda até ele se estrangular - nenhum desiludirá o leitor ávido de aventura. Bem sentado no sofá, na cama ou em frente à lareira, este é um convite à leitura, a mais extraordinária forma de viajar, como assegura Alberto Manguel. 
  Da mesma opinião é Carlos Vaz Marques (CVM), coordenador da colecção de Literatura de Viagens da editora Tinta-da-China. De resto, integrar o volume nessa série de livros não deixa de ser uma "provocação", que o jornalista assume com gosto. Este é um livro sobre lugares imaginados. Só existiram na cabeça dos escritores que os inventaram, continuando hoje a existir na mente do leitor. Alguns resultaram de viagens efectivamente realizadas, outros de pura efabulação. No entanto, assegura CVM, não são menos "reais". "Viajar com a Literatura é ir além do aspecto tangível dos lugares físicos que conhecemos e vemos nos mapas", afirma. "A viagem não é apenas uma deslocação no espaço, é mental também." Do cinema, do teatro, da ópera, mas na sua esmagadora maioria da literatura, aqui estão muitos dos lugares com que nos habituámos a sonhar. 
  Da Ilha da Civilização à Ilha do Tesouro, de Stevenson. Da Terra do Nunca, dos livros de James Matthew Barrie, à Terra-Média, de Tolkien. Do Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, ao Deserto do Sudoetes, de Tung-Fang Shuo. Do maravilhoso País de Alice, de Lewis Carrol, ao admirável Mundo de Oz. Para cada destino, Manguel e Guadalupi resumiram a informação essencial, o que incluiu descrições sobre a fauna e flora, breves sinopses históricas, análises de comportamentos e até conselhos para viajantes.
  "Cada entrada deste dicionário é um autêntico microconto", sugere CVM. "Contudo, o método deles não foi o de acrescentar coisa nenhuma, nem de fazer literatura. Escrevem a partir dos elementos que o livro em causa dá para caracterizar o que foi imaginado". Lendo-o de fio-a-pavio ou abrindo-o ao acaso, ninguém ficará indiferente a estes lugares imaginários. Já no passado assim acontecia, como Alberto Manguel lembra no prefácio que escreveu para a edição portuguesa. "É seguindo as geografias imaginárias que construímos o nosso mundo: o resto é apenas confirmação", afirma o autor de Uma História da Leitura. "Antes de ver os seres do Novo Mundo, Cristóvão Colombo já sabia o que iria encontrar, pois lera Aristóteles e Plínio e os bestiários medievais por eles inspirados, de modo que ao ver, na sua terceira viagem, ao largo da costa da Guiné, os manatins semelhantes a focas, registou no seu diário com uma pontinha de desapontamento: 'hoje vimos três sereias aproximarem-se do costado da embarcação, mas não tão belas como as descrevem'. Antes de ver o Novo Mundo, Colombo já dispunha de um vocabulário para designar os seus prodígios". 
  O leitor contemporâneo terá idêntica sensação. Mas neste livro encontrará referências suficientes para compreender a sua surpresa. Ou o seu desapontamento. A pouco saberão as referências a autores de expressão portuguesa. Da Abadia da Rosa, de Umberto Eco, ao Zyundal das Ilhas da Sabedoria de Alexander Moszkownki, são escassas as referências. Apenas duas e ambas na letra C. A Cidade dos Cegos, de José Saramago, onde o "clima é extremamente desagradável: o calor é opressivo apesar das chuvas torrenciais, fazendo com que se ergam vapores tóxicos dos montes de lixo. Os guarda-chuvas não são fáceis de encontrar". E Calemplui, situada ao largo da costa da China e avistada por Fernão Mendes Pinto na sua Peregrinação. Trata-se de uma ilha "rodeada por uma muralha de mármore de 26 palmos de altura construída com lajes tão perfeitas que a parede parece uma só peça". Muitos lugares imaginados pela língua portuguesa faltam neste Dicionário. Se é certo que nem sempre houve uma apetência nas literaturas lusófonas para a escrita fantástica, aquela que segundo CVM mais propiciam este tipo de criações, haveria por onde escolher. Alberto Manguel reconhece a omissão: "É uma das muitas falhas deste Dicionário. Se fizesse o livro agora incluiria seguramente livros do António Lobo Antunes e do Gonçalo M. Tavares, particularmente o seu bairro. São dois grandes escritores". Se um projecto como este - "borgiano", segundo Vaz Marques - pode ser avaliado pelo que lhe falta, mais importante é sublinhar o que integra. E cerca de 1200 entradas, ao estilo das gazetas do século XIX, profusamente ilustrado e com uma prosa limpa e convidativa, muitas são as viagens que se podem iniciar a partir destas páginas. Até porque, como diz "a imaginação salva a realidade do reino inefável dos fantasmas".


Alberto Manguel, DICIONÁRIO DOS LUGARES IMAGINÁRIOS (Tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos), Tinta-da-china, 1040 pp, 29 euros

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Digressão Europeia de 2012 (com paragem em Lisboa), LEONARD COHEN interpreta «Anthem»



Leonard Norman Cohen, nasceu em Montreal, província de Quebec, Canadá, em 21 de Setembro de 1934, de uma família judia de origem polaca. A sua infância foi marcada pela morte de seu pai quando Cohen tinha apenas 9 anos, facto que seria determinante para o desenvolvimento de uma depressão que o acompanharia durante boa parte da vida.
Aos 17 anos, ingressa na Universidade McGill e forma um trio de música country. Paralelamente, passa a escrever seus primeiros poemas, inspirado por autores como García Lorca.
Consagração literária:
Em 1956, lança seu primeiro livro de poesia, Let Us Compare Mythologies, seguido em 1961 por The Spice Box of Earth, que lhe conferiria fama internacional.
Após o sucesso do livro, Cohen decide viajar pela Europa, e acaba por fixar residência na ilha de Hidra, na Grécia, onde passa a viver junto com Marianne Jensen e seu filho, Axel.
Em 1963 lança The Favorite Game, sua primeira novela, seguida pelo livro de poemas Flowers for Hitler, em 1964, e pela sua segunda novela, Beautiful Losers, em 1966.
            Já estabelecido como escritor, Cohen decide tornar-se compositor. Para isso, muda-se para os Estados Unidos, onde conhece a cantora Judy Collins, que grava duas de suas composições ("Suzanne" e "Dress Rehearsal Rag") no seu disco In My Life, de 1966.
No ano seguinte, Cohen participa no Newport Folk Festival, onde chama a atenção do produtor John Hammond, o mesmo que antes havia descoberto, dentre outros, Billie Holiday e Bob Dylan.  Songs of Leonard Cohen, seu primeiro disco, é lançado no final do ano, sendo bem recebido por público e crítica.
O Seguinte, Songs from a Room, seria produzido por Bob Johnston, produtor dos principais trabalhos de Dylan nos anos 60. Embora não tão bem recebido quanto o anterior, contém a canção "Bird on the Wire", que o próprio Cohen disse ser a sua favorita. Em 1971, lança Songs of Love and Hate, um disco mais sombrio que os anteriores. No mesmo ano, o diretor Robert Altman, em seu filme McCabe & Mrs. Miller, utiliza três canções de Cohen: "Sisters of Mercy", "Winter Lady" e "The Stranger Song", todas do primeiro disco do cantor.
Um novo livro de poemas, The Energy of Slaves, é lançado em 1972 e, no ano seguinte, o disco ao vivo Live Songs.
Também em 1973, por ocasião da Guerra do Yom Kipur, Cohen faz uma série de shows gratuitos para soldados israelitas. Baseada no poema "Unetaneh Tokef " da tradição judaica, surgiria a canção "Who by Fire", incluída no álbum New Skin for the Old Ceremony, a ser lançado no ano seguinte.
Em 2011 foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras.
Livros
1956 - Let Us Compare Mythologies, 1961 - The Spice Box of Earth, 1963 - The Favorite Game, 1964 - Flowers for Hitler, 1966 - Beautiful Losers, 1966 - Parasites of Heaven 1968 - Selected Poems 1972 - The Energy of Slaves, 1978 - Death of a Lady's Man, 1984 - Book of Mercy ,1985 – Credo, 1993 - Stranger Music, 1995 - Dance Me to the End of Love, 2000 - God Is Alive, Magic Is Afoot e 2006 - Book of Longing

                                                          Discografia -Álbuns de estúdio:
1967 - Songs of Leonard Cohen, 1969 - Songs from a Room, 1971 - Songs of Love and Hate, 1974 - New Skin for the Old Ceremony, 1977 - Death of a Ladies' Man, 1979 - Recent Songs, 1984 - Various Positions, 1988 - I'm Your Man,1992 - The Future,2001 - Ten New Songs, 2004 - Dear Heather, 2012 - Old Ideas.

                                                                           Ao vivo:
1973 - Live Songs, 1994 - Cohen Live, 2001 - Field Commander Cohen: Tour of 1979, 2008 - Live in London, 2009 - Live at the Isle of Wight 1970 e 2010 - Songs from the Road.

                                                                       Colectâneas:
1975 - The Best of Leonard Cohen, 1997 - More Best of Leonard Cohen, 2002 - The Essential Leonard Cohen, 2008 - The Collection  e 2009 - Greatest Hits.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Fragmento de um texto que devia ser lido em voz alta, pelas ruas


«(…) Com o abuso do estilo, fomos deixando para trás a frescura das origens, a fisicalidade da palavra, ela que é parte do real e nele se inscreve. Sei que o caminho para a abstracção foi útil e foi bom porque nos fez aceder, por exemplo, aos conceitos. Mas, mutatis mutandis, assim como Hölderlin teve certo desígnio ao traduzir Antígona, também eu gostaria de repor a primeira energia da linguagem, recordando a nudez inicial. Falemos de “catarse” — que se aplica à gritaria das manifestações. Serve a catarse para energizar? Não serve. Uma catarse é má medida. Uma catarse era concretamente vómito de ressaca. O alívio de estômago a seguir a uma bebedeira. Era deitar para fora e ficar limpo. Transposta para a lição do teatro, assim durou, implicando sempre uma transformação. É isso o que se quer saindo à rua? Que a vivência nos lave do mal-estar? Falar não deve aliviar do mal. Pelo contrário, deve torná-lo inteligível e discutível. Torná-lo, a bem dizer, manipulável. Um material exterior e que, com esforço, consigamos dobrar. Nós precisamos tanto de catarses como de sonhos. Temos de levar outra intenção para as ruas.
O que é manifestar? É dar a ver. Dar a ver com as mãos. Não necessariamente mãos em festa — a etimologia é duvidosa. Provavelmente mãos conflituantes. Há com certeza uma finalidade para juntar num desfile a multidão, mas nós não somos já gente de ritos, não somos gente de re-ligação. Temos de inaugurar tudo novamente, a começar pelas frases de incentivo, pois as que ouvimos, de tão velhas, tão usadas, perderam o vigor. Estão transformadas em ladainhas de beatitude. Aliás, as mais das vezes não serviam como motores de mobilização, fracas de rima, rastejantes de sentido. Mas enquanto se caminhou a passo forte, enquanto, a velocidades várias, se manteve uma leitura histórica das coisas, uma certeza de alma potenciava aquele vocabulário esmaecido.
Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos… “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.»
Hélia Correia, num artigo lido nas páginas do Público.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Três poemas de Avelino de Sousa

Sigo as tuas pegadas pela praia
em busca de teu corpo de azevinho.
És como um búzio onde se ouve o mar,
como a onda que alaga e se retrai,
como um vinho novo que se bebe.
Sigo tuas pegadas, mas não te encontro.
És como a rocha aonde a vaga cai
e rebenta numa maré de espuma.
Ou te sumiste ou não mereço ter-te.
Por isso, agora há só o grito das gaivotas
e a luz tardia desmaiada             :bruma

Avelino de Sousa, Poemas, 2005.





















Disseste-me em surdina ao meu ouvido
palavras que não ouso revelar.
Todo o segredo havido entre nós dois
só o partilharemos com o mar.
Disseste-me palavras nunca ouvidas,
palavras de desejo, ciciadas,
que só os amantes pronunciam
e se fundem no som alto das vagas.
O que me disseste e o que eu te disse
p'ra sempre o haveremos de calar.
A não ser que outros amantes as escutem
na rebentação larga do mar.

 Avelino de Sousa, In Poemas, 2005



Ias na proa da barca, singela.
Teu olhar vogava à flor das águas
e tua mão tocava-as, distraída.
Eu era teu barqueiro.
Fazia deslizar os remos, silencioso.
Mas já atearas em meu corpo
o rastilho do amor. E como a mariposa,
era atraído à tua chama intensa.
Só me falta arder no teu incêndio.

Avelino de Sousa, Poemas, Ed. de Autor, 2005


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Carlo Gesualdo



Carlo Gesualdo,  também chamado  Gesualdo da Venosa  (8 de Março  de 1566  –  8 de Setembro de 1613), Príncipe de Venosa, foi um compositor italiano da Renascença tardia, famoso pelos seus livros de madrigais.




Plange quasi virgo





                                  Death for five voices

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Livros raros

EPISODIO DO GIGANTE ADAMASTOR 
        
    



JOSÉ BENOLIEL
Lisboa, 1898
Imprensa Nacional
1.ª edição
24,9 cm x 16,4 cm
52 págs.
subtítulo: Lusiadas, canto V, est. XXXVII-LXX – Estudo Critico
exemplar estimado, com restauro recente no bordo superior da capa e na lombada; miolo limpo, por abrir
22,00 eur (IVA e portes incluídos)

Breve, mas muito interessante, ensaio. Assim (diz-nos, a certo passo, Benoliel):
«[...] A tres fontes diversas foi Camões beber a ideia prima do episodio de Adamastor: á Biblia, á mythologia grega, e principalmente a um conto arabe, que, entre os da collecção das Mil e uma noites, é chamado o “Conto do Pescador”. [...]» E a importância de uma tal asserção reside no facto de Camões, em pleno terreiro da cruzada contra o infiel, ser, pois, influenciado pela cultura do inimigo da sua época.

                    

 Os Lusiadas, poema epico de [...]



LUIS DE CAMÕES
[Dom Joze Maria de Souza-Botelho, morgado de Matteus]

Paris, 1819
Na Officina Typographica de Firmino Didot
s.i. («Nova edição correcta, e dada á luz, conforme á de 1817, in-4.º»)
23,2 cm x 14 cm
8 págs. + CX págs. + 2 págs. + 420 págs. + 1 folha em extra-texto (gravura)
encadernação da época em marmoreado verde-água, gasta, não aparado
exemplar estimado; miolo limpo, com ocasionais picos de oxidação
PEÇA DE COLECÇÃO
950,00 eur (IVA e portes incluídos)

Para Inocêncio Francisco da Silva (Diccionario Bibliographico Portuguez, tomo V, n.º 55, Imprensa Nacional, Lisboa, 1860) esta edição é «Preferivel, no que diz respeito á correcção do texto, á edição de 4.º gr. [...]. Foi dirigida por Timotheo Verdier, e o Morgado deu, para ser n’ella incorporado, o seu ultimo trabalho, resultado da confrontação das duas edições de 1572, a segunda das quaes só pôde examinar quando estava já impressa a grande edição de 4.º.»                    


O Manuscrito de «O Guardador de Rebanhos» de Alberto Caeiro




FERNANDO PESSOA
apresent. e texto crítico de Ivo Castro

Lisboa, 1986
Publicações Dom Quixote
1.ª edição facsimilada
30,4 cm x 21,4 cm
180 págs.
encadernação editorial em sintético com sobrecapa impressa a cor
exemplar em bom estado de conservação; miolo irrepreensível
assinatura de posse do crítico literário José Palla e Carmo na primeira folha-de-guarda
55,00 eur (IVA e portes já incluídos)

Do prefácio de Ivo Castro:
«[...] só resta uma forma de até ele chegar: lê-lo. Ler o que escreveu. Mas ler o que efectivamenteescreveu. [...]
Por isso, só faz bem suspender por um tempo o crédito às edições e visitar a sua fonte: os manuscritos de Pessoa, os seus dactiloscritos e os poucos textos que ele próprio fez editar, sabendo muito bem o que queria. Pessoa encontra-se entre os seus papéis: vai sendo hora de aí o procurar. [...]»

pedidos para Lisboa, Portugal:
telemóvel: 919 746 089

domingo, 26 de janeiro de 2014

Sobre o riso - breve afloramento

 Sean Connery em The Name of the Rose (1986).


«(...) Era a maior biblioteca da cristandade - disse Guilherme. 
- Agora - acrescentou - o Anticristo está verdadeiramente próximo, porque nenhuma sapiência lhe fará mais de barreira. Por outro lado vimos o seu vulto esta noite.

                                                                 
- O vulto de quem? - perguntei, aturdido.

- Jorge, quero eu dizer. Naquele rosto devastado pelo ódio contra a filosofia vi primeira vez o retrato do Anticristo, que não vem da tribo de Judas, como pretendem os seus anunciadores, nem de um país longínquo. O Anticristo pode nascer da própria piedade, do excessivo amor de Deus ou da verdade, como o herege nasce do santo e o endemoninhado do vidente. Teme, Adso, os profetas e aqueles que estão dispostos a morrer pela verdade, que de costume fazem morrer muitíssimos com eles, frequentemente antes deles, por vezes em seu lugar. Jorge cumpriu uma obra diabólica porque amava de modo tão lúbrico a sua verdade que ousava tudo com a condição de destruir a mentira. Jorge temia o segundo livro de Aristóteles porque ele ensinava talvez a deformar deveras o rosto de toda a verdade, a fim de que não nos tornássemos escravos dos nossos fantasmas. Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprender a libertar-nos da paixão insana pela verdade...».

Umberto Eco («O Nome da Rosa»).



«O próprio divide-se em quatro acepções. (...) A quarta é quando se verifica o concurso simultâneo de todas as referidas condições - predicar-se de uma só espécie, a toda a espécie, e sempre, como relativamente a homem se predica a faculdade do riso. De facto, mesmo que ele não se ria sempre, o homem é, no mínimo, capaz de rir, não por estar sempre a rir, mas porque naturalmente é capaz de rir; é um predicado que faz sempre parte da sua natureza, tanto como do cavalo faz parte a capacidade de relinchar...».

Porfírio («Isagoge. Introdução às Categorias de Aristóteles»).



«Eis o primeiro ponto para o qual chamaremos a atenção: não existe cómico fora do que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; mas nunca será risível. Poderemos rir-nos dum animal mas somente porque surpreendemos nele uma atitude de homem ou uma expressão humana. Poderemos rir-nos dum chapéu, mas do que a gente se ri não é do bocado de feltro ou de palha, mas da forma que os homens lhe deram, do capricho humano que o modelou. Como se explica que um facto tão importante na sua simplicidade, não tenha chamado há mais tempo a atenção dos filósofos? Alguns definiram o homem como «um animal que sabe rir». Bem o poderiam ter definido também como um animal que faz rir, porque se o mesmo acontece com qualquer outro animal ou objecto inanimado é por semelhança com o homem, pelo sinal com que o homem o marca ou pelo uso que o homem dele faz.

Notemos agora, como um sintoma não menos digno de atenção, a insensibilidade que, normalmente, acompanha o riso. Dir-se-ia que o cómico não pode produzir a sua vibração senão caindo numa superfície de alma bastante uniforme, bastante calma. A indiferença é o seu meio natural. O riso não tem maior inimigo do que a emoção. Não quero dizer que não possamos rir duma pessoa que, por exemplo, nos inspira piedade ou mesmo afeição: simplesmente, nessa altura, precisamos de esquecer por instantes essa afeição, fazer calar essa piedade. Uma sociedade de puras inteligências talvez não chorasse, mas rir provavelmente ainda riria; ao passo que almas sempre igualmente sensíveis, continuamente integradas no ritmo uníssono da vida, onde todos os acontecimentos se prolongassem em ressonância sentimental, não conheceriam nem compreenderiam o riso. Procurai, por momentos, interessar-vos por tudo que se diz e que se faz, agi em imaginação com aqueles que agem, senti com aqueles que sentem, dai enfim o máximo de expansão ao vosso poder de simpatia; como se obedecessem a uma batuta mágica logo vereis ganhar peso os objectos mais leves e uma coloração severa passar sobre todas as coisas. Despersonalizai-vos agora e presenciai a vida como espectador indiferente: quantos dramas passarão a comédia! Basta taparmos os ouvidos ao som da música numa sala onde se dança para que os dançarinos nos pareçam logo ridículos. Quantas acções humanas resistiriam a uma prova deste género? Não as veríamos nós passar, de repente, do grave ao divertido se as isolássemos da música do sentimento que as acompanha? O cómico exige, pois, finalmente para produzir todo o seu efeito, qualquer coisa como uma anestesia momentânea do coração. Dirige-se à inteligência pura».
                                                                                               
Bergson (O Riso. Ensaio sobre o significado do cómico»)









                                                    

                                               Bergson

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

As Musas Cegas VII de Herberto Helder

Herberto Helder

AS MUSAS CEGAS VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face. 

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo -
um novo instrumento rodeado de campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras. 

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende com uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho de sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta. 

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos;
às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
É a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência da minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa. 

Se ela um dia adormecer com cerejas junto à respiração
pequena, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros - e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando - escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome -
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas. 

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta: 

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.


                                            
                                                Luís Lucas diz

Um artigo do Pe. Gonçalo Portocarrero

Um assunto muito polémico. Eis uma perspectiva.

"Um direito desumano" - Pe. Gonçalo Portocarrero

Se se entende que duas pessoas do mesmo sexo podem ser dois bons 'pais' ou  'mães', 
porque não permitir que três ou mais indivíduos do mesmo sexo possam adoptar?!

No dia 17 de Maio de 2013, a Assembleia da República aprovou, na generalidade, 
a lei da co-adopção pelo parceiro do progenitor, em uniões de pessoas do mesmo sexo.

É por um imperativo de não-discriminação que se defende que também às uniões, 
ditas homossexuais, se reconheça o que já é permitido aos casais, ou seja, à união 
de um homem e uma mulher. Contudo, a justiça não obriga a tratar todos por igual, 
mas a dar a cada qual o que lhe é devido. A justiça fiscal discrimina os cidadãos 
em função dos seus rendimentos; se o não fizesse, seria profundamente injusta. 
Uma autarquia, uma sociedade anónima e uma associação de columbófilos podem 
ter personalidade jurídica, mas é razoável que a lei não lhes permita o casamento, 
nem a adopção de menores. É uma discriminação em relação às pessoas singulares? 
Sem dúvida, mas é legítima, como justa é a interdição da adopção para uniões não
 equiparáveis à família natural, que é a união de um homem e uma mulher.

Os defensores do pretenso direito à adopção esquecem que não há, nem pode haver, 
um direito a ter filhos, naturais ou adoptivos. Não o têm os casais naturais 
– quanto muito, uma mera expectativa – nem as uniões de pessoas do mesmo 
sexo e, se aqueles podem adoptar e estes não devem faze-lo, é porque o Estado 
deve facultar ao menor órfão, ou filho de pais ausentes ou incapacitados, um pai 
e uma mãe, ou seja, uma família natural. Só na impossibilidade de adopção, 
dever-se-ia entregar a criança sem pais a uma instituição social que, como
 a união de duas pessoas do mesmo sexo, também não é, em sentido próprio,
 uma família.

Um homem singular pode ser um bom pai, como uma única mulher pode ser 
uma boa mãe e, por isso, é razoável que um só indivíduo possa adoptar. 
Mas dois homens ou duas mulheres, não só não são melhores pais ou mães 
– na realidade, só um deles poderá ser, verdadeiramente, pai ou mãe – como, 
em caso algum, podem ser pai e mãe, o que só poderá ocorrer se forem, 
respectivamente, homem e mulher.

Por outro lado, se se entende que duas pessoas do mesmo sexo podem ser dois 
bons «pais» ou «mães», por que não permitir que três ou mais indivíduos
 do mesmo sexo, possam adoptar?! Afinal de contas, a exigência da 
heterossexualidade do casal é tão natural quanto a sua composição dual: 
se duas pessoas, do mesmo sexo, podem ser casal e família, porque não 
três, quatro ou cinco?! A obrigação legal de o casal serem só dois não 
será também preconceituosa?!

De facto é e, nisto, os defensores da co-adopção têm toda a razão. É um precon-
ceito, como preconceituosa é também a essência heterossexual do casal. É um 
preconceito porque é uma realidade anterior a qualquer racionalização do amor, 
da família ou da geração: a natureza heterossexual da união fecunda não 
decorre de nenhuma ideologia, cultura ou religião, mas é uma realidade originária
e natural e, apenas neste sentido, é um pré-conceito. É uma realidade aliás 
universal, porque 97% das uniões estáveis são constituídas, em todo o mundo,
 por pessoas de diferente sexo e 100% dos casais naturalmente fecundos são 
heterossexuais. É por isto que o casamento é matrimónio: a união que faz
 da mulher mãe, ou mater, em latim, porque, quando se exclui a geração, 
não há verdadeiro casamento, nem família.

A nova lei foi saudada como um avanço civilizacional. Mas, se assim é, por 
que razão os deputados a aprovaram, na generalidade, de forma tão apressada e
 sigilosa? Se são cientes da sua transcendência, não seria lógico que exigissem
 uma maioria qualificada, como se requer para as reformas constitucionais? 
Será que temem o veredicto popular? Será que sabem que a grande maioria 
das pessoas não concorda com a nova lei?

Uma grande vitória para os direitos humanos? Que uma criança tenha, legal-
mente, dois «pais» ou duas «mães» é tudo menos humano, porque o que é 
próprio da natureza humana é ser-se filho de um só pai e de uma só mãe. 
É desumano que o filho, privado do seu pai, ou da sua mãe, veja esse 
seu ascendente substituído pelo parceiro do outro progenitor. A nova lei,
 portanto, não consagra nenhum novo direito humano, mas talvez, por
 desgraça, o primeiro pseudo-direito desumano. 

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