sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Saadi de Shiraz

Uma noite chorava eu amargamente minha vida desperdiçada, e decidi, enfim, renunciar aos prazeres absurdos e ao tempo perdido. Ficar sentado a um canto, surdo e mudo, vale mais que ser escravo de uma língua indomável. Veio um amigo e tentou levar-me para os prazeres da cidade, mas recusei. Disse-me ele, então:

"Saadi no jardim das rosas", iluminura do séc. XVII
Enquanto ainda possuis
O poder da palavra,
Utiliza-o no regozijo e na alegria!
Amanhã quando vier o anjo da morte,
Não terás outra escolha senão o silêncio.

Mais tarde fomos passear nos jardins. Ele colhia flores e eu lhe disse: “não há permanência nas flores; o que não dura não merece devoção. Ele perguntou: “O que devo fazer” Respondi: “Vou compor um livro, O jardim das Rosas, que não perecerá”.

Leva uma rosa do jardim,
Ela durará alguns dias.
Leva uma pétala do meu Jardim das Rosas,
Ela durará a Eternidade.


                                               )(


Perguntaram a um sábio: “Deus criou várias espécies diferentes de árvores e as fez carregarem-se de frutos e multiplicaram-se. Entretanto, nenhuma delas é chamada ‘livre’ como o cipreste. Qual a razão?” Ele respondeu: “Toda árvore floresce, dá frutos e seca segundo as exigências das estações, salvo o cipreste, que está sempre verde e fresco: tal é condição daquilo que é livre”.

Não ates teu coração a valores transitórios.
Por muito tempo depois dos califas,
O tigre continuará a correr em Bagdá.
Se podes, sê generoso como a tâmara;
Se não podes, então sê como o cipreste: livre.


(Traduções: Rosangela Tibúrcio, Beatriz Vieira, Sergio Rizek, a partir da versão de Omar Ali-Shah)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Borges


A Argentina como o Chile representam no extremo sul do planeta a “Última Thule”. Borges (para o efeito não importa que esteja parcial ou inteiramente cego) trabalha ansioso com o terceiro olho, aquele que perfura qualquer distância. Não contempla apenas a ribeira no outro lado, mas também a terra mais distante. Fixará a vista interior em ilhas tão afastadas como a Islândia, a Última Thule do Setentrião romano. Pretende esgotar meridianos e paralelos. Empreende a travessia indagatória para as vizinhas do Árctico não por um puro exagero de auto-desterrado que se projecta no outro extremo, mas porque no globo terráqueo, que é redondo, todos os pontos fazem parte da cultura universal. A sereia que o chama e provoca é a palavra escrita, os textos cardiais, o entranhável, processo das línguas. Cruza os mares para averiguar a formação de idiomas. Dá crédito à notícia que os vikings (“uma multidão de cães que saíram da caverna de uma leoa barbara") chegaram às costas americanas séculos antes de Colombo. Mas anda também atrás das vagas de soldados da fortaleza romana e das tribos germânicas que demoliam limites e derrotavam legiões, traziam nas mãos a espada e na boca o poder de um rico verbo comunicativo. E foi por isso que ocupavam a Islândia, a Inglaterra, a Irlanda, a Alemanha e a Escandinávia.
O homem nascido na fronteira sul não será um marginal. Sente a atracção do centro e das margens opostas, das histórias de guerreiros que inspiram escritas e engedram poetas com ou sem nome. Faz isso com a consciência de que são herdeiras e várias literaturas europeias modernas. Apaixona-se pela evolução dos alfabetos e a odisseia das escrituras. Sente curiosidade pelos textos subjacentes na superfície dos palimpsestos. Não desconhece que se tratam de pergaminhos cuja escrita original foi apagada para estampar por cima outras diferentes mensagens. Tal fenómeno supressivo, essa operação de substituição e sobreposição dá-se também no caso das religiões triunfantes, que constroem as suas igrejas na base dos templos do vencido. Borges é um caso curioso de um estranho e apaixonado poliglota, amante da gramática histórica, do fluir das filologias, do nascimento obscuro, gradual, acumulativo e correctivo nos lábios dos povos das línguas do hemisfério norte e por que não também no seu próprio. Vidente ou cego embebe-se nos poemas mais antigos, na gesta de Beowulf, nas Eddas da Noruega, Gronelândia e Islândia. Deseja penetrar na trajectória de géneros literários com ressonâncias vindas de além mar, que continuam a transformar-se pela voz das gentes. Seduzem-no as Sagas, espécie de epopeias em prosa, nascidas no século X, recitadas no calor do vinho e dos banquetes por um rapsodo que geralmente celebra façanhas de homens de carne e osso. Na sua opinião, as Sagas revelam “um carácter dramático e prefiguram a técnica do cinematógrafo”. Não tem dificuldade em aceitar que se inspiram na realidade e se reportam a factos verídicos. Não se incomoda que a sua forma seja a de uma crónica vinculada ao acontecimento objectivo e nem sequer se importa desconhecer o nome dos seus autores, mas talvez tivessem sido homens que recolheram esses factos esquecidos no anonimato das aldeias. E de algum modo correspondem ao impulso genético que nasce das próprias raízes e estão na origem do folclore, dos cantos populares que brotam como as flores do campo em todos os continentes, sem excluir sequer os povos latino-americanos.
Observa que a partir de certo momento (indica o ano mil) os 'thulir' ou recitadores sem nome são substituídos pelos escaldos, poetas que se identificam por um apelido e assinalam o aparecimento do escritor assim individualizado, mais ou menos profissional, que surge pela necessidade da sociedade, para a qual a poesia narra a história e denota uma tomada de consciência da sua identidade. Borges não hesitará em servir-se das literaturas estrangeiras de qualquer época e território para semear e adubar o seu próprio território, mas não será um súbdito incondicional. Adere ao princípio da autonomia criadora, tornando sua a opinião de Goethe de que “o Canto dos Nibelungos é clássico, mas não deve ser tomado como modelo, nem tão-pouco os chineses, os sérvios ou Calderón”. 

Os Dois Borges - Vida, Sonhos, Enigmas, Volodia Teitelboim, Trad. Serafim Ferreira, Campo das Letras, 2001

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

10 coisas que você precisa saber sobre os extremistas do Estado Islâmico

A começar pelo nome do grupo: afinal, é EI, EIIL, EIIS, ISIS, ISIL, Califado...?


EIIL, EIIS, ISIS ou ISIL? Estado Islâmico ou Califado?
 
O grupo de extremistas islâmicos sunitas que está espalhando o terror por partes da Síria e do Iraque não causou apenas um rastro de morte e destruição, mas também muita confusão na cabeça das pessoas do mundo
inteiro.

1. O que ou quem é o EIIL? Como ele surgiu?
 
O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) é formado por extremistas sunitas, recrutados em todo o mundo de língua árabe e até em regiões externas a ele. Suas origens se conectam com Abu Musab al-Zarqawi, terrorista nascido na Jordânia.
 
"Al-Zarqawi foi para o Afeganistão como jihadista no final da década de 1980", explica o padre Mallon. "Lá, ele fundou a Organização para a Tawhid (proclamação da unidade de Deus) e para a Jihad e, em 2004, colocou essa organização sob a liderança da Al-Qaeda e declarou a guerra total contra os xiitas".
 
O Estado Islâmico (EI, outro dos nomes e siglas atribuídos ao grupo) foi muitas vezes chamado de “Al-Qaeda do Iraque” durante a Guerra do Iraque [nos anos 2000], explica uma nota da arquidiocese de Toronto. O grupo se proclama como um Estado independente que reivindica partes do Iraque, da Síria e do Líbano. Criado no início da Guerra do Iraque, o grupo tem como alvo principal os militares e os governos do Iraque e da Síria, mas assumiu também a autoria de ataques que mataram milhares de civis iraquianos. De acordo com estudos de agências de inteligência norte-americanas, o Estado Islâmico tem planos de tomar o poder e transformar esse território num estado islâmico fundamentalista.

"Parece então que o EIIL é um desdobramento da Al-Qaeda do Iraque", observa o padre Mallon. "Mas a própria Al-Qaeda já criticou o EIIL por ser excessiva e indiscriminadamente violento, o que o colocaria no risco de perder apoio popular".
 
"Como ramo da Al-Qaeda, o EIIL segue a teologia wahabita do islamismo sunita, que surgiu no leste da Arábia nos anos 1740", destaca o padre Pacwa. "Sua obsessão é com o conceito da unicidade de Deus. Os primeiros wahabitas se revoltaram com as honrarias dedicadas ao profeta Maomé em seu túmulo na cidade de Medina. Por isso eles destruíram o túmulo completamente. A catequese deles na Arábia enfatizava a unidade absoluta de Deus e convocava todos os muçulmanos a se unirem a eles na aplicação desta doutrina ou, do contrário, a serem mortos".
 
O EIIL é hoje liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, que se declarou "Califa" em 29 de junho deste ano. Se a constante alternação de nomes do EIIL é desconcertante, aplica-se o mesmo a Al-Baghdadi. Seu nome original é Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarra'i. Ele adotou seu atual “nome de guerra” em homenagem ao primeiro califa, Abu Bakr.
 
"Recentemente, Al-Baghdadi começou a se chamar de Abu Bakr al-Baghdadi al Husseini al-Qurayshi, sendo que os dois últimos nomes são uma tentativa de ligar a linhagem dele com a do profeta Maomé e com a tribo dos coraixitas", explica o padre Mallon. "Se ele é mesmo descendente do Profeta, isso deveria ficar óbvio em seu nome. Mais recentemente, ele passou a usar o título de ‘O Comandante dos Fiéis Califa Ibrahim’".

2. Por que surgiu o EIIL?
 
O pe. Mallon aponta dois motivos para o surgimento do EIIL:
 
“Motivo ideológico: difundir o islã e o domínio islâmico pelas terras do clássico Califado Abássida, que chegou a se estender até a Península Ibérica. O grupo mostra pouca compreensão da história axadrezada do califado. Neste sentido, o EIIL tende a um certo “romantismo”, mas de tipo incrivelmente brutal.
 
Motivo prático: muitos sunitas no Iraque e na Síria sentem-se marginalizados, tanto pelo governo alauíta de Bashar al-Assad em Damasco quanto pelo governo xiita de Nouri al-Maliki em Bagdá. Eu acho que muitos sunitas veem o EIIL como a única oposição eficaz, especialmente no tocante ao regime de Bagdá. Não tenho certeza, mas suspeito que a lealdade não vai muito a fundo”.
 
3. Qual é o objetivo do EIIL e a probabilidade de atingi-lo?
 
O objetivo do grupo é restabelecer o califado e ampliar ao máximo a hegemonia religiosa, política e militar islâmica, diz o padre Mallon. "Para conseguir isso, eles estão dispostos a violar os princípios tradicionais da guerra islâmica".
 
4. É um movimento global?
 
“Sim e não”, responde o padre Mallon. "É global porque apela a um público amplo de muçulmanos que compartilham a ideia romântica de um califado em que os muçulmanos governam tudo e todos. Mas não é um movimento global quando levamos em consideração que ele provavelmente não é sustentável em vários aspectos. Além disso, haverá oposição por conta do crescente desejo de democracia em muitos países muçulmanos. A democracia é a antítese dos califados, historicamente autocráticos. E os xiitas, em princípio, são contrários a um califado sunita mandando neles".
 
Prossegue Mallon: "Embora o EIIL use os métodos mais brutais e selvagens, seria um grave erro enxergá-lo como um grupo primitivo. Ele já se mostrou perturbadoramente sofisticado no uso dos meios de comunicação e das mídias sociais. Há relatos de uma loja em Istambul e de um site em que podem ser compradas camisetas com o logotipo do EIIL, além da faixa que nós vemos na testa dos combatentes do EIIL e de outras formas de propaganda. O New York Times estima que o EIIL seja o grupo terrorista mais rico do mundo, com centenas de milhões de dólares. A maior parte dessa riqueza vem dos bancos e das pessoas físicas que eles roubaram nas cidades saqueadas. Parece que eles têm evitado depender de fontes externas de financiamento, porque essas fontes poderiam ser facilmente bloqueadas".
 
5. Qual é a atitude do EIIL em relação com o cristianismo, em particular no Oriente Médio?
 
O pe. Mallon explica que a atitude do EIIL em relação ao cristianismo parece basear-se na crença de que todas as referências positivas aos cristãos no alcorão foram revogadas (por exemplo, a que chama os cristãos de "os mais próximos dos muçulmanos no amor"). Isto reduziria os cristãos a alvos de humilhação, aniquilação ou conversão forçada. "Mas esta posição não é muito difundida entre os muçulmanos em geral".
 
O pe. Pacwa explica que os wahabitas modificaram o ensino corânico tradicional em relação às outras religiões. "O alcorão ensina que os judeus e os cristãos fazem parte dos ‘povos do livro’, já que a sua bíblia inclui livros de ou sobre antigos profetas que o islã reconhece. Judeus e cristãos que se submeterem ao islã e pagarem o imposto da jizya para receber proteção dos muçulmanos estarão seguros. Mas o wahabismo ensina que os judeus e os cristãos de hoje em dia decaíram e não são mais considerados parte dos ‘povos do livro’. Eles são hoje iguais aos infiéis, ou ‘kufar’, em árabe, e a alternativa que resta a eles é converter-se ou ser mortos. O mesmo se aplica aos pagãos e aos ateus. Por incrível que pareça, os radicais também atribuem o status de infiéis aos xiitas e a todas as outras seitas do próprio islamismo, como a dos alauítas que governam a Síria. Isto explica por que eles atacam cristãos, xiitas, alauítas, yezidis e qualquer um que seja diferente dos wahabitas, que ensinariam a forma mais pura da unicidade de Deus".

6. Há muitos relatos de atrocidades cometidas contra os cristãos e outras minorias religiosas. O que se sabe com certeza?
 
O pe. Mallon diz que existem "testemunhos razoavelmente confiáveis ​​de atrocidades" cometidas pelo EIIL contra os cristãos, contra os sunitas moderados, contra os xiitas e contra outros grupos religiosos. "Muitos foram executados, mulheres foram escravizadas, etc.".
 
O pe. Pacwa acrescenta que a ideologia wahabita não explica as crucificações relatadas. "Decapitar crianças não é uma prática islâmica normal, nem ensinar aos filhos que as cabeças humanas são troféus. Se eles fossem loucos, a disciplina militar deles não seria tão boa. Aparentemente, eles escolheram uma escuridão tamanha de alma que até a Al-Qaeda já rejeitou o EIIL".
 
7. Os Estados Unidos ou a comunidade internacional poderiam tê-los parado antes? E agora?
 
O EIIL poderia ter sido enfraquecido pelos Estados Unidos e pela comunidade internacional, acredita o padre Mallon, "mas eu não acredito que ele possa ser parado por agentes externos. Ele tem que ser parado de dentro da sociedade síria e iraquiana. Quando a população em geral se revoltou com a violência de Al-Zarqawi, o movimento dele perdeu força consideravelmente. Os apoiadores ideológicos ou românticos do EIIL parecem ignorar muito da história, dos fatos e até da moralidade islâmica. Mas eu acho que os apoiadores práticos e políticos são na maioria sunitas com graves e reais queixas contra os governos de Damasco e de Bagdá. Eu acredito que se as demandas desses sunitas fossem apresentadas de uma forma justa, equitativa e democrática, o EIIL perderia muito do apoio que tem hoje".
 
Esta é uma realidade que os governos ocidentais deveriam enxergar.
 
8. O Iraque está formando um novo governo. Qual é a relevância deste processo?
 
Formar um novo governo não é suficiente, opina o pe. Mallon. O Iraque tem que formar um novo tipo de governo, um governo livre de corrupção e de nepotismo, livre de divisões, "um governo de, por e para todos os iraquianos. Sem este novo tipo de governo, eu não acredito que o Iraque seja viável como país unificado".
 
9. Qual é o papel que as Igrejas podem desempenhar nesta crise humanitária?
 
Pe. Mallon: "As Igrejas cristãs do Oriente Médio estão numa posição de fraqueza, talvez na sua pior posição em todos os tempos. Mas elas podem fornecer assistência tanto material quanto espiritual para quem está sofrendo. As Igrejas podem dar um poderoso testemunho da necessidade de justiça. As Igrejas têm a capacidade de espalhar informação não partidária por todo o planeta. As Igrejas poderiam ter um papel de conciliadoras. Os árabes cristãos, normalmente, são pessoas educadas e altamente qualificadas. Eles poderiam fornecer o arcabouço teórico para a emergência da sociedade civil e das estruturas democráticas na região e funcionar como agentes de reconciliação. Se essas possibilidades vão se concretizar é uma questão em aberto, que parece distante, futura. Mas o futuro é o lugar onde vive a esperança...".
 
10. Afinal de contas, qual é o nome do grupo?
 
Inicialmente, a mídia ocidental se referiu ao grupo extremista com a sigla EIIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), traduzida para cada idioma ou mantida em inglês (ISIS). Depois, passou-se a usar a sigla EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), porque a região historicamente conhecida como Levante abrange também o Líbano, outro país em que o grupo reivindica territórios. Em seguida, o próprio grupo passou a se denominar apenas Estado Islâmico (EI), não mais se restringindo à região do Iraque, da Síria e do Líbano e dando a entender, portanto, que as suas ambições de domínio são mais abrangentes. Finalmente, no dia 29 de junho deste ano, o líder do grupo se proclamou califa e afirmou ter restabelecido o califado, passando a adotar este termo para se referir aos territórios que o grupo foi dominando. Como a existência de fato do califado é amplamente questionada, a imprensa e os estudiosos preferem continuar a chamar o grupo de EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) ou apenas de EI (Estado Islâmico).



  Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí Te procurava e eu, sem beleza, precipitava-me nessas coisas belas que Tu fizeste. Tu estavas comigo e eu não estava Contigo. Retinham-me longe de Ti aquelas coisas que não seriam, se em Ti não fossem. Chamaste, e clamaste, e rompeste a a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o Teu perfume, e eu respirei e suspiro por Ti; saboreei-te e tenho fome e sede; tocaste-me e inflamei-me no desejo da Tua Paz.

SANTO AGOSTINHO *in Confissões*


Santo Agostinho de Hipona 
(Tagaste, 13 de novembro de 354 Hippo Regius 
(também chamada Hipona), 28 de agosto de 430.



Corpo Santo - Ruy Cinatti



Ruy Cinatti

CORPO SANTO - uma antologia de folhas volantes

selecção e prefácio de Manuel de Freitas
Averno
2014

domingo, 17 de agosto de 2014

Madredeus

O MAR


"Ao Longe o Mar" no filme "Les Açores de Madredeus", de Rob Rombout - 2006







segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Ariano

              ARIANO SUASSUNA  foi um dramaturgo,romancistaensaísta e poeta brasileiro.
Idealizador do Movimento Armorial e autor de obras como Auto da Compadecida e O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, entre outras obras, foi um preeminente defensor da cultura do Nordeste do Brasil.
Nasceu em João Pessoa a16 de junho de 1927 e faleceu no Recife, em 23 de julho de 2014, aos 87 anos.Um autor fulcral da visão lusíada.




sábado, 26 de julho de 2014

A CRUZ DE LORENA

A representação da cruz dupla tornou-se, com o decorrer do tempo, um símbolo amplamente utilizado para diversas finalidades. Iremos aqui detalhar um pouco mais sobre a Cruz de Lorena, estamos incluindo algumas curiosidades relacionadas com este símbolo.

Cruz de Lorena no Memorial Charles de Gaulle em Colombey-les-Deux-Églises.

Em homenagem ao General de Gaulle, a Cruz de Lorena, com 43,50 metros de altura, construída em granito rosa pelos arquitetos Marc Nebinger e Michel Mosser, evoca a memória de Charles de Gaulle tal como ele queria. O local onde está o monumento,erguido em 1972 sobre o ponto mais alto de Colombey-les-Deux-Églises, oferece um esplêndido panorama paisagístico de Haute-Marne. A cidade ficou famosa após o General de Gaulle ter comprado, em 1934, a fazenda de La Boisserie, onde costumava descansar. Morto em 1970, o general, sua esposa Yvonne e sua filha Anne estão enterrados no cemitério da pequena comunidade.

PRIMEIRAS REPRESENTAÇÕES

Encontram-se representações da cruz dupla em La Ferrasie, na Dordonha e em Las Batuecas, na Espanha, desde a era pré-histórica. 
Na interpretação de alguns, o montante vertical é um meridiano e localiza o Norte e o Sul; a barra horizontal mais curta, representa o solstício de inverno, e a mais longa, o de verão; o conjunto simboliza, portanto, o percurso do sol durante um ano.



O Espaço representado por uma cruz dupla:
A) O meridiano celeste,
B) A rota do sol no verão,
C) O percurso do sol no inverno.


A CRUZ DUPLA NA HISTÓRIA

É em Jerusalém que se identificam os primeiros vestígios da cruz dupla. Desde o século IV é sob a forma da cruz dupla que são representadas as relíquias da Cruz Verdadeira utilizada na Paixão de Cristo, segundo a lenda, reencontrada por Santa Helena sobre o Monte das Oliveiras. Esta representação foi adoptada porque seria o símbolo do poder dos Patriarcas de Jerusalém, guardiões da Cruz Verdadeira. A mesma figura se encontra sobre todos os túmulos de Patriarcas, de Bizâncio até o Monte Athos, na Attica e a partir dessa região difundiu-se na Rússia, onde foi chamada “Cruz Russa” e na Hungria, onde se tornou “Cruz de Hungria”, passando a ser um emblema da realeza. A cruz dupla chegou ao Ocidente com o comércio de relíquias, à época dos merovíngios. No século VI, o Imperador de Bizâncio, Justino II ofereceu uma relíquia a Santa Radegonde. Chegando a Tours dentro de um magnífico relicário esmaltado, esta relíquia foi festejada com euforia por uma multidão entusiástica ao som do hino “Vexila Regis prodeunt”, composto especialmente pelo poeta Fortunat e está, actualmente, guardada na Igreja da Santa Cruz de Poitiers. Existem relicários semelhantes, cada qual mais ricamente adornado que os outros, em muitas partes da Europa e, naturalmente, na França, em Eymoutiers na Haute-Vienne. Também conhecida como “Cruz de Santo Eloi” ou de “São Luis da Santa Capela”, este símbolo está relacionado com as Cruzadas e, até mesmo, se lhe atribuem poderes mágicos. Sua forma serviu de modelo para a planificação de belas igrejas e catedrais: na Inglaterra, em Lincoln, Rochester ou Worcester e na França, como é o caso das igrejas da Abadia de Cluny, de Saint Benoît no Loire, e Saint Quentin. 
A cruz dupla aparece também nas moedas e nas insígnias dos cruzados, iniciando-se com os Templários, desde que estes foram constituídos como Ordem pelo Patriarca de Jerusalém, Guarimond, em 1119. Deu-se o mesmo com a Ordem dos Hospitaleiros do Espírito Santo ou de Saint Géréon, na Palestina e depois com a Ordem da Cruz de Anjou.


A CRUZ DE ANJOU

Em 1241, o bispo Thomas de Hierapetra, em Creta, doou uma relíquia da Verdadeira Cruz de Cristo, que teria pertencido anteriormente a Gervais de Comène, patriarca de Constantinopla, a Jean de Allaye, cavaleiro angevino que retornava ao seu país, de volta da Terra Santa. Jean de Allaye doou-a, por sua vez, para a Abadia bernardina de La Boissière, em Anjou. Esta relíquia, é feita de uma madeira dura, provavelmente cedro e composta de três ramos: um vertical com 28 cm, e dois atravessados, um com 8 cm e o outro com 11 cm. Em 1357 foi colocada sob a proteção dos Jacobinos de Angers e durante a Guerra dos Cem Anos, em 1379, guardada em segurança no Castelo de Angers por Luis I de Anjou que criou, nesta ocasião, a ordem de cavalaria, “Ordem da Cruz de Anjou”. No fim da Guerra dos Cem Anos, em 1456, a relíquia retornou para a Abadia de La Boissière. Em 1790, foi transferida para o Hospício dos Incuráveis, de Baugé e escapou miraculosamente às destruições revolucionárias. Em Heráldica, a Cruz de Anjou é negra e a Cruz de Hungria é branca.


Cruz de Anjou


A Cruz de Anjou foi reconhecida como Cruz de Lorena, apenas no século XV, graças a René I de Anjou, o Bom, Duque de Lorena de 1431 a 1453 que a difundiu pelos seus estados. Seu neto, René II, Duque de Lorena de 1473 a 1508, utilizou-a para atestar ser herdeiro direto de Godofredo de Bulhões e, portanto, do Reino de Jerusalém e para justificar suas pretensões sobre o Reino da Hungria, como herdeiro da Rainha Joana II. René II escolheu como divisa para seu selo real: “Rinatus Dei Gratia Hungria Ierusalem et Siciliae Rex.” “René pela graça de Deus, rei de Hungria, de Jerusalém e da Sicília.”



René II representado em uma gravura de Jean Cayon
para a Chronique de Chrétien de Lud.

SIGNIFICADOS DA CRUZ DE LORENA

A Cruz de Lorena, simbolizava que os Duques de Lorena eram duplamente cristãos: por serem príncipes de um Estado cristão e por terem sido os conquistadores de Jerusalém. Além disso, possui outros significados:

• É uma representação cristã de uma cruz comum de suplício com a tabuleta de inscrição, escolhida como símbolo da Paixão de Cristo.
• É uma afirmação do poder dos Patriarcas do Oriente nos tempos de perseguições e da resistência da Fé contra todos os ataques.
• É um símbolo das Cruzadas e da Cavalaria e, portanto, sempre da resistência e da honra da Fé.
• É um símbolo dos direitos dos duques de Lorena sobre seus diversos estados e de suas pretensões sobre os reinados de Jerusalém e da Hungria.
• É um símbolo da resistência da Lorena e do direito de permanência dos seus habitantes em sua terra, contra todos os seus inimigos.



René II de Anjou, duque de Lorena e seus soldados a caminho da batalha de Nancy.

Na Batalha de Nancy, contra Carlos O Temerário, que nela perdeu a vida, René II de Anjou fez suas tropas portarem a cruz dupla para se distinguirem dos borgonheses, que ostentavam a Cruz de Santo André.
“Karolo duce stipato
Burgundorum potencia
Andrina cruce signato
Signi pro differencia
Guerram sine clementia
In Lotharingas accepit
Unde pro resistencia
Crucem binam quisque cepit.”

“Carlos O Poderoso
Duque de Borgonha, 
traz como símbolo a
cruz de Santo André, 
escolhida como o seu distintivo 
em uma guerra sem piedade 
contra a Lorena onde, 
como sinal de resistência, 
escolheram trazer a cruz dupla."



O SIMBOLISMO CRISTÃO DA DUPLA TRAVESSA

O símbolo da cruz, uma trave vertical com uma transversal, representa a Paixão de Cristo e o instrumento de tortura sobre o qual Jesus foi crucificado. Então por que se juntou a esta uma transversal menor? Era costume dos romanos escrever em uma prancheta (chamada titulus ou superscriptio) e colocá-la sobre a cabeça do crucificado com o seu nome e o motivo de sua condenação. Assim foi colocada sobre a cabeça de Jesus a prancheta com a inscrição “I.N.R.I”: Iesus Nazarenus, Rex Iudaecorum (Jesus de Nazareth Rei dos Judeus)! Pilatos usou este costume, para humilhar e ridicularizar um pouco mais o povo colocando em subentendido à expressão "rei dos judeus", ou "aquele que se pretendia..." Nessa ocasião, em resposta aos protestos do povo, depois do “eu lavo as minhas mãos”, ele pronunciou a famosa frase:" o que está escrito está escrito!"
Esta prancheta nominativa ter-se-ia desenvolvido, na segunda travessa horizontal da cruz dupla, pois, os romanos costumavam repetir a inscrição em latim, grego e hebraico nos títulos, o que torna o texto, longo o suficiente para justificar a utilização de um pedaço de madeira com um bom tamanho.
Os historiadores se esforçam para comprovar como verdadeira a relíquia de Santa Helena mantida na Basílica Santa Cruz, em Roma. Encontrada por acaso em 01 de Fevereiro de 1492, dentro de uma caixa de chumbo escondida em um nicho da igreja, a relíquia seria um grande pedaço da tabuleta da "Verdadeira Cruz" descoberta por Santa Helena no Calvário em 326 . 
Desde essa época, a cruz dupla aparece nas armas das cidades que pretendem demonstrar o seu apoio à Lorena. Ela também servirá como símbolos dos restabelecimentos católicos durante as guerras religiosas.

A CRUZ DE LORENA NA CRUZADA CONTRA A TUBERCULOSE

A Cruz de Lorena é o símbolo internacional da "cruzada" contra a tuberculose, instituído em 1902, por sugestão do médico francês Gilbert Sersiron. A escolha dessa insígnia inspirou-se na Cruz de Lorena usada pelo Duque de Lorena Godofredo de Bulhões, em 1087, na Primeira Cruzada para Jerusalém. Veja coleção de selos em: http://anamargarida-memorias.blogspot.com.br/2012/02/o-selo-na-luta-contra-tuberculose-no.html




A Cruz de Lorena, tem sido fonte de inspiração para muitos escritores e poetas. Apresentamos a nossa versão para uma poesia contemporânea e original, principalmente, pela sua forma: 
A Cruz de Lorena 
poema-caligrama de Yvan GOLL.




A ponteira ou flecha da Torre do Relógio do Palácio Ducal em Nancy, apresenta todos os símbolos do poder real dos duques de Lorena, as alérions, a cruz dupla, a coroa e o cardo.


 


Imagens e Textos: 
INTERNET 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014



Mosaico de N.ª Sr.ª do perpétuo Socorro

Alexander Nevsky, Catedarl de Sófia



segunda-feira, 23 de junho de 2014

 FOR EVER FORTUNE
  Scottish Music in the 18th Century
  Les Musiciens de Saint-Julien, François Lazarevitch, Robert Getchell

                                        

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Citação

G. K. Chesterton: «Nós na verdade não queremos uma religião que esteja certa quando nós estamos certos. O que queremos é uma religião que esteja certa quando nós estamos errados.» -- The Catholic Church and Conversion

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Camões, Máquina do mundo

A Esfera

Escrito por Luís de Camões


Depois que a corporal necessidade
Se satisfaz do mantimento nobre,
E na harmonia e doce suavidade
Viram os altos feitos que descobre,
Tethys, de graça ornada e gravidade,
Para que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Para o felice Gama assim dizia:

- «Faz-te mercê, Barão, a Sapiência
Suprema de cos olhos corporais
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Segue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.» -
Assim lhe diz, e o guia por um mato
Árduo, difícil, duro a humano trato.

Não andam muito, que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêem no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a superfície, claramente.

Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a divina verga
Compôs, e um centro a todos só tem posto,
Volvendo, ora se abaixe, ora se erga,
Nunca se ergue ou se abaixa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem, e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte.

Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual enfim o Arquétipo que o criou.

Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo, ali ficou.
Diz-lhe a deusa: o transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do mundo aos olhos teus, para que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.

Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em redor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

(Os Lusíadas, Canto X). 

Chesterton

"As palavras de uma boa prosa significam o que elas dizem. As palavras de uma boa poesia significam o que elas não dizem."

G. K. Chesterton

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A r c a d e F i r e

                                             WAKE UP with 
                                          David Bowie

                                                  JOAN OF ARC