sábado, 19 de janeiro de 2013

Rumi

 



Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.


Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.


Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.


Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.


Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.


Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?


Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!


Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.


Não durmas,
senta com teus pares


A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes noturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.


Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflete, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.


A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.


Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.


Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.


Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.


Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
- Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
- Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!


Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!


Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.


Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?


Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.


Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.


Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.


Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!


Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
- Louco, é assim o amor.


Colhe-me, colhe-me, colhe-me!
À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
- Isto não se pode dizer, isto se aprende.


A fé da religião do Amor é diferente.
A embriaguez do vinho do Amor é diferente.
Tudo que aprendes na escola é diferente.
Tudo que aprendes do Amor é diferente.


- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?



Salar Aghili - Poem of the Atoms

Monsanto - Portugal

                                                               Mágica Monsanto
                                       

                                                       Adufeiras de Monsanto


                            Música tradicional das Adufeiras de Monsanto



Ronda Dos Quatro Caminhos - Cravo Roxo  (tradicional)
com adufeiras de Monsanto e coros alentejanos

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sons e imagens do espaço gravados pela NASA

 
 



                      












    


      Tal qual como acreditava Pitágoras:
      A música das esferas existe!                        
 

 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Património de ideação portuguesa edificado pelo mundo

               » Música: Madredeus, O Pastor

A estrada



Foto: Arash Ashkar © 2012

Dois Poemas de António Osório

CAMÕES


Lia-me Camões meu Pai.
... A tristeza de ambos
se juntava, em mim crescia.
E a voz, a inalterável
mergulhia das palavras
procriavam sarmentosos liames.
(Basílico a Mãe depunha no lume,
a carne com alecrim perfumava).
O livro de carneira negra,
as letras juntas em oiro:
morros, alusões, muros
verdentos, o último da vida ouvia.
Mordaça invisível. Em lágrimas,
minhas, de meu Pai e de Camões, voava.

Foto: Dois Poemas de António Osório 

CAMÕES


Lia-me Camões meu Pai.
 A tristeza de ambos
 se juntava, em mim crescia.
 E a voz, a inalterável
 mergulhia das palavras
 procriavam sarmentosos liames.
 (Basílico a Mãe depunha no lume,
 a carne com alecrim perfumava).
 O livro de carneira negra,
 as letras juntas em oiro:
 morros, alusões, muros
 verdentos, o último da vida ouvia.
 Mordaça invisível. Em lágrimas,
 minhas, de meu Pai e de Camões, voava.

 O CANTO DO CISNE
 
Nunca o ouvi.
 Que seja inextinguível.
 Ou então silencioso
 por pudor e tremendo
 de raiva.
 E que dure o bastante
 para que nada fique por cantar.
 
[in A Luz Fraterna - Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009]
O CANTO DO CISNE                                                  

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.

[in A Luz Fraterna - Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2009]
Ver mais
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1215067-ler-poesia-e-mais-util-para-o-cerebro-que-livros-de-autoajuda-dizem-cientistas.shtml

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

R. M. Rilke - Soneto



Orfeu





















Monumento, nenhum. Deixai somente a rosa
florir, em sua glória, alguma vez por ano.
Porque assim é Orfeu. Sua metamorfose
nesta ou naquela forma. Em vão é que tentamos

outros nomes lhe dar. Ao menos aprendamos
que é sempre Orfeu quem canta. Ele vai, ele volta.
Não nos basta saber que afinal de ano a ano
um dia passa, ou dois, numa taça de rosas?

... Mesmo que sofra a sós a angústia de deixar-nos,
terá de se banir para que o entendamos?
Enquanto no aqui sua palavra paira,

ei-lo já longe, aonde o não acompanhais.
Entre as grades da lira, as mãos estão libertas,
e mesmo quando parte apenas obedece.

Rainer Maria Rilke
(de “Os Sonetos a Orfeu”)

Tradução de Vasco Graça Moura

Alentejo - 1




TERRA COM SOMBRA


   Se no princípio do Universo esteve – como creio – a aliança entre o Pensamento e Palavra, só pela Palavra e pelo Pensamento cresceremos no confronto e na aceitação do mistério que nos transcende e nos rodeia. Só com a ajuda da sabedoria nascida do Verbo (encarnado há cerca de dois mil anos) poderemos reconciliar-nos com o Mundo, com o Outro e, sobretudo, connosco – neste tempo tão complexo, de sociedade em crise, à procura de um novo paradigma civilizacional. Não interessa se a Sabedoria nos chega por palavras, por imagens, por sons, por movimentos ou pela contemplação do “jardim do mundo”. Vale a pena tão só aceitar, entender e praticar com humildade os seus atributos: “há nela um espírito inteligente e santo, / único, múltiplo e subtil, / ágil, penetrante e puro, / límpido, invulnerável, amigo do bem e perspicaz, / livre, benéfico e amigo dos homens, / estável, firme e sereno, / que tudo pode e tudo vê, / que penetra todos os espíritos, / os inteligentes, os puros e os mais subtis” (Sabedoria, 8: 22 – 23).

   Verdade seja dita que há também palavras que nos salvam ou que, pelo menos, nos consolam. Lembro, por exemplo, quanto me pacificou, há uns anos, a dedicatória inscrita por José António Falcão numa das suas mais belas obras (A a Z – Arte Sacra da Diocese de Beja, 2006): “Este livro é dedicado a todos os que, saindo do Alentejo, não o abandonaram”. Alentejano exilado por vontade alheia, na co-movente Península da Arrábida, tão simples frase teve a capacidade de cauterizar feridas ainda recentes de alguém que continuava a martelar a letra de um velho fado: “Abalei do Alentejo, / olhei para trás chorando. / Alentejo da minh’ alma, / tão longe me vais ficando”.

   Já tive oportunidade de manifestar a minha integral admiração pelo trabalho desenvolvido no Baixo Alentejo pelo Departamento do Património Histórico-Artístico da Diocese de Beja. Não vale a pena repetir razões, tantas elas são. É contudo, importante, sublinhar o seu exemplo clarividente, em áreas só aparentemente separadas da preservação e divulgação dos bens artísticos da Igreja Católica. Bastará recordarmos a sua abertura ao Outro e ao mundo poliédrico da Cultura contemporânea, a revitalização dos Caminhos de Sant’ Iago no sul de Portugal ou o Festival “Terras sem Sombra”, neste momento a decorrer na sua oitava edição. Mesmo no “exílio”, penso que todos os alentejanos se sentirão serenamente felizes ao verem a sua terra como palco de um evento musical com ecos espalhados pelo mundo fora.

   É belo o seu nome, “Terras Sem Sombra”. E ainda mais belo ao revelar, aos ouvidos de quem o saiba entender, a essência da espiritualidade do Alentejo – proposta ao Mundo. Para compreendermos esta “terra sem sombra”, tão minguada de gentes, é preciso meditar os dois primeiros versos da quadra que deu origem ao título: “O Alentejo não tem sombra, / senão a que vem do Céu.” Não tem sombra material. É quase um deserto (aquele deserto que tanto aproximou os homens de Deus, no confronto com o interior e o exterior do seu ser). Tem apenas a sombra “que vem do Céu” (como diriam os místicos islâmicos heterodoxos). Ou seja, o Alentejo possui a terra inteira dentro de si, porque toda a criação, aos olhos do crente, é uma “sombra de Deus”, uma manifestação da realidade divina. Abdicou – e transformou-se em rei de si próprio (como diria Fernando Pessoa por Ricardo Reis).

   Sem sombra divina, não teria alma. Por isso me permito afirmar que a música do espírito apresentada pelo Festival “Terras sem Sombra” revela, na ausência de matéria, uma outra sombra que é, no fundo, um símbolo da Vida, daquela que transcende a existência. Tem pois José António Falcão toda a autoridade para espicaçar os ouvintes do festival com um texto claro e perturbador na sua análise e nas suas propostas. Interpretando a espiritualidade alentejana como proposta e exemplo, afirma no programa do evento:

   “Se o ‘tempo dos guerreiros’ e o ‘tempo dos agricultores’ souberam reconhecer até que ponto a benevolência apaziguada e a violência extrema se podem cruzar na natureza, o ‘tempo dos mercadores’ entregá-la-ia a uma pilhagem sem precedentes, exacerbada pela industrialização , que conduz o planeta até à fronteiras do descalabro. […] Depois do caçador, do lavrador, do metalurgista, do comerciante, emerge cada vez com maior nitidez a imagem do cuidador de um jardim que, como arquétipo, se projecta sobre os quatro pilares da sustentabilidade: ambiente, economia, sociedade, cultura. […] Este jardineiro […] vislumbrado [por Charles Péguy] não será, afinal, o mesmo que apareceu a Maria Madalena, junto ao túmulo, após a Ressurreição […]?

   Ameaçado e em grande perigo, o planeta só salvará se os homens de boa vontade souberem interpretar “a sombra que vem do Céu” e cuidarem do “jardim do mundo” em paz e harmonia. É, para isso, necessário, acolhermos o mistério da Vida e percebermos que esse acolhimento só acontecerá se abrirmos no nosso interior o espaço necessário, entrevendo – como refere J. A. Falcão – “a essência criadora do nada”, tão próxima quando vivemos a boa, a bela e a verdadeira terra do nosso Alentejo.

 
Ruy Ventura

domingo, 13 de janeiro de 2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

David Bowie, the master



David Bowie o Camaleão completou na terça-feira, dia 8 de Janeiro, 66 anos .

  Falar de David Bowie é falar de um génio, e deveria ser quase como falar de um Deus.
De facto, a música de Bowie deve, sem dúvida, ser considerada genial, dado a sua incontornável contribuição artística e inovadora, produzida única e exclusivamente pela sua mente brilhante e criativa.
   A extinta revista britânica Melody Maker, nomeou " Ziggy Stardust ", como o melhor disco dos anos 70, e ele com certeza figura na maior parte das listas dos melhores álbuns da história.
Toda a lenda criada em torno de "Ziggy Stardust" é justa.
   Neste álbum , Bowie utilizou toda a sua apurada imaginação e senso estético para criar o personagem do rock star alienígena , que vinha do espaço para salvar a Terra.
   O disco reúne algumas das composições mais famosas de Bowie como “Starman”, Sufragette City” e a homônima “Ziggy Stardust”, e se tornou um verdadeiro marco do chamado glam rock. Pouco tempo depois, Bowie assassinaria seu personagem em pleno palco. Era o fim de uma verdadeira febre que tomou de assalto a Inglaterra e, posteriormente, o mundo.
Enganou-se quem profetizou que a morte de "Ziggy Stardust" era o fim de Bowie.
   O camaleão estava vivo, e ainda tinha muito para dar à musica no futuro ...


David Bowie , fotografado por Helmut Newton.

 
 

 
 
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

«Senhora do Almurtão» (Beira - popular)

 

                                            Teresa Salgueiro - "Senhora do Almurtão"
    

                                                                                       Senhora do Almortão  (Popular)

                                                                                    

de Rodrigo Emílio


Clique para Fotobiografia

Alerta

Noite para a Morte
(Insónia sem rumo)

- Só os meus olhos dormem
Eu não durmo

Minnesänger

Poeta-trovador,
- cantava-lhes d`amor,
quando ia vê-las...
Tinha uma voz de tenor e o condão de adormecê-las...

(Era uma espécie de extintor
d`estrelas...)
 
Quadras à solta, como 5 velas d’anos em louvor doTiaguinho e do principe seu irmão

Há dois postigos que trago
sempre no peito comigo:
por um, espreita o Tiago;
por outro, espreita o Rodrigo.
 
De cada vez que os abro,
fica-me parvo o umbigo,
ao ver: de um lado, o Tiago;
do outro lado, o Rodrigo.

Comem uvas, bago a bago;
papam figos, figo a figo...
Não perde um bago, o Tiago,
Não perde um figo, o Rodrigo.
 
(Se o bago te fôr amargo,
põe-no de lado, Tiago!
Larga o bago! Evita o perigo!
Troca por figos o bago;
depenica com o Rodrigo.
... E, sem causares grande estrago
chama um figo a cada figo!

Por este andar, não acabo
e ainda apanho um castigo
do Rodrigo ou do Tiago
ou até, do Pai Rodrigo...
...e, então, é que é o diabo...!
Estou feito ao bife comigo!...

Sendo assim, já não vos chago
mais por hoje, com o que digo.

Parabéns, para o Tiago!
... E oito chôchos, p’ró Rodrigo.

Há dois postigos que trago
sempre no peito comigo:
ligo um – sai-me o Tiago;
do outro – sai-me o Rodrigo.

(Nunca por nunca os apago
dos olhos de avô e amigo!...)
Estoril, aos 8 de Dezembro de 2003: Dia de Nossa Senhora da Restauração

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Selo de Salomão


 

  Durante um passeio de Primavera organizado para fruir a Natureza e conhecer plantas e flores e árvores, conheci uma flor com o intrigante nome de selo de Salomão e, procurando saber mais, deparei-me com uma informação interessante:
  A origem do nome selo-de-salomão dever-se-á à forma de carimbo arredondado com umas estruturas finas que fazem lembrar caracteres hebraicos, as quais podem ser observadas no Outono – altura em que a parte aérea da planta seca –quando se puxam as hastes na zona em que estas se ligam ao rizoma.

  Por sua vez, a sabedoria popular diz que o Rei Salomão colocou o seu selo nesta planta quando reconheceu o seu grande valor medicinal e protetor. Muitas culturas atribuem características quase mágicas a esta planta. Efetivamente, o selo-de-salomão foi utilizado durante centenas de anos como planta medicinal com uma grande diversidade de aplicações, tais como contusões, diabetes, ferimentos, hemorroidas, inflamações, nevralgia, cardiotónico, diurético ou sedativo.

  Os antigos romanos, no primeiro dia de Maio, queimavam olíbano (incenso) e selo-de-salomão e penduravam grinaldas de flores diante dos seus altares em honra aos espíritos guardiães que olhavam e protegiam as suas famílias e as suas casas.

 
 
 
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Armand Amar & Sandrine Piau ...


 




                                                 
                           
                                                 Armand Amar - The Earth from above


     Sandrine Piau                                                                                                        Cum dederit