domingo, 10 de março de 2013

Pedro Mexia sobre o poeta Daniel Faria

 Daniel Faria: uma obra singular na poesia portuguesa contemporânea.

 
   Licenciou-se em Teologia e em Estudos Portugueses e ingressou no mosteiro beneditino de Singeverga, em Roriz, onde morreu precocemente, aos 28 anos. Em vida, publicou cinco livros de poemas, incluindo, dois fortíssimos, ambos editados pela Fundação Manuel Leão: "Explicação das Árvores e de Outros Animais" e "Homens Que São como Lugares Mal Situados". Postumamente, a mesma fundação publicou "Dos Líquidos". E Vera Vouga, que se ocupou do espólio, organizou a obra completa, incluindo inéditos (Quasi, 2003), volume agora reeditado. As três coletâneas iniciais valem como textos de aprendizagem, e talvez fosse escusado recuperá-las, mas os restantes títulos são absolutamente singulares e resgatam uma poesia "inefável", entendida como vivência íntima, não biográfica nem confessional, como mundo interior, metafísico, verbal. Uma poesia que desafia a paráfrase e a contemporaneidade e que torna "religioso" o espaço poético.
"Explicação das Árvores e de Outros Animais" (1998) organiza-se em torno de «explicações», mesmo quando explica algo que é «inexplicável». Essas explicações são como que provérbios, no sentido bíblico do termo, e não faltam personagens ancestrais, de Jacob e a sua escada para o céu a Lot que vira as costas à destruição. A «explicação» não é um processo racional, é um labirinto do qual se tem de encontrar uma saída (e também a mitologia grega é convocada, com homens angustiados, como Teseu e Sísifo). Nada daquilo que o poeta procura é uma evidência, e são várias as alusões à solidão do catre, à aflição e ao pavor de quem espera não se sabe o quê:
«Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.»
 
   O   «conforto» da fé mais se parece com um perigo.
Mas onde cresce o perigo cresce também aquilo que salva, como escreveu outro poeta.
Os poemas não escondem uma certa desolação, com a imagem recorrente da pedra, coisa inerte, com os pressentimentos de morte, ou com versos como estes:
                                                                                                 
«O precipício não tem futuro ou desalento
Mas um carreiro que atravessa as giestas e o trevo
Um carreiro que chega ao seu destino
Como a lenha podada ao fogo
A madrugada aos olhos do mocho.
O desamparo não tem as mãos juntas
Mas o peito dividido.»

   As imagens da natureza são indícios:
 
«Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas/
E seiva
E derramam o perfume como lava.»
 
   O poeta tenta encontrar várias designações para esse mundo inexplicável, algumas metafísicas, como «o aberto», outras mais psicológicas, como uma «nova infância»; a verdade é que no termo de um caminho acidentado, assustador, literalmente dantesco, os textos encontram «uma luz parada no meio da voragem». E assim se chega a um texto chamado “Explicação do Homem”:
 
«Não me verga a velhice nem o peso do crânio
Mas os olhos cansados na dor de te não ver.
O chão tornou-se a última paisagem.
No mais longínquo da terra te levantas
E vejo erguer-se a poeira dos teus pés.»
 
  Em "Homens Que São como Lugares Mal Situados" (1998), os versos tornam-se mais longos, há anáforas, preces, ladainhas, catálogos; as imagens, insólitas e memoráveis, têm um toque "herbertiano". Daniel Faria reivindica uma certa capacidade cristã de compreender «o humano» enquanto categoria, sobretudo na sua infelicidade. E escreve sobre homens que são como lugares mal situados, como casas saqueadas, como caminhos barricados, como esconderijos de contrabandistas, como danos irreparáveis, como sítios desviados, como projetos de casas. Esses homens (e mulheres) usam as personagens bíblicas como exemplos, patriarcas como Abraão, profetas como Elias, amigos como David e Jónatas, mães improváveis como Sara ou Raquel, ressuscitados como Lázaro, quase ressuscitado como Jonas, a mulher adúltera perdoada, o filho pródigo recompensado, e até Zaqueu, que subiu a uma árvore para ver Jesus.
  Mais do que uma poesia "católica", esta é uma poesia "bíblica", porque encontra nas Escrituras todos os «lugares» do humano, todas as tribulações e redenções. Umas vezes, o poeta recria narrativas apocalípticas, em linguagem narrativa e hermética, outras recorre a lamentações confiadas, ao jeito do Eclesiastes:
 
«Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade
(..) Antes que digas não tenho mais prazer
Antes que a noite seja noite e não vejas mais o sol nem as estrelas nem os filhos
Antes que voltem as nuvens depois da chuva como a viuvez (...)
Antes que a tua única herança seja a lembrança
Antes que o fio de prata se rompa e a roldana rebente no poço
Antes de tudo isto
Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês.»
 
   Faria descreve-se como um cego que fala do que vê, daquilo que vê num «pensamento» atuante, que transforma, que se transforma. É um «pensamento» que o poeta descreve como uma mecânica violenta, a qual há de ter um motor algures:
 
«Mas tu existes.
Os dias somam ruína à ruína
E o a vir multiplicará
A miséria. 
Apodreço não adubando a terra
E cada dia somado a cada hora
Não completa o tempo.
Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Somarei a tua ausência à minha escuta
E tu redobrarás a minha vida.»
 
   É uma alegria sofrida, uma certeza magoada, uma plenitude frágil.
O extenso "Dos Líquidos" (2000) assume uma componente mais monacal, mais "mística", com diversas referências a São João da Cruz. Os «líquidos» são o sangue, a água, as lágrimas, ou o coração, a tempestade, as visões, experiências comuns vividas como sinais, como milagres. Faria faz dos textos «meditações» ou «solilóquios», e o imaginário judaico-cristão fornece o vocabulário de «cedros», «candeias» e «sarças». Certos passos soam como comentários bíblicos, e até indicam os livros em que se inspiram, mas nunca são simples variantes dos episódios originais, é o caminho das personagens bíblicas refeito mentalmente, de modo que é o sujeito do poema quem caminha para a terra prometida, quem desmultiplica pães e peixes, quem desenha palavras no pó da terra, quem sobrevive a dilúvios e é atravessado por exércitos. Quando o poeta escreve que ninguém lhe ensinou aquilo, «fui eu que descobri», quer dizer que a experiência poética pode vir da Bíblia mas que a experiência humana é dele. O "grande código" bíblico é uma linguagem poética e metafísica adequada a uma peregrinação humana, aliás mais dorida do que eufórica:
 
«É verdade que estou muito triste/
Na terra (já me indicaram a estrada/
Com luz pública). Estou sentado nos degraus/
Como alguém que parou de subir.»
 
  O Deus de Daniel Faria tanto é velho-testamentário, terrível, como o Deus dos Evangelhos, um Deus que acompanha: «Desataste-nos do pó desfivelando as sandálias/ Tu caminhas sobre os nossos pensamentos.»
  A poesia de Daniel Faria pertence ao seu tempo, porque supõe um vazio ou uma ausência. Mas é também "inatual", e por isso marcante, porque descobre um sentido, um sentido que religa. Faria acreditava que no princípio era o verbo, uma convicção tão religiosa quanto poética: 
 
«É ele que conserva o mecanismo dos pássaros
É ele que move os moleiros quando param os moinhos
É ele que puxa a corda dos bois e a linha
Do céu que assinala os limites dos montes
 
Ele é que eleva o corpo dos santos, é ele
Que amestra o pólen para o mel, ele decide
A medida da flor na farinha
Ele deixa-nos tocar a orla dos seus mantos.»

Pedro Mexia
In Expresso (Atual), 28.7.2012
29.07.12

sábado, 9 de março de 2013

NOVALIS - Poemas

“Todo o homem que pensa                        
encontrará um dia a verdade –
pode partir de onde quiser
e ir por onde quiser.”
“Estamos sós
Com tudo o que amamos”.
“A ciência é apenas uma metade.
A outra é a fé.”
“Todas as barreiras só existem
para serem ultrapassadas
- e assim por diante.”
                           »«»«»«
“Quando a chave de toda a creatura
seja mais do que número e figura,
e quando esses que beijam com os lábios,
e os cantores, sejam mais que os sábios,
e quando o mundo inteiro, intenso, vibre
devolvido ao viver da vida livre,
e quando luz e sombra, sempre unidas,
celebrem núpcias íntimas, luzidas,
quando em lendas e líricas canções
escreverem a história das nações,
então, a palavra misteriosa
destruirá toda a essência mentirosa.”


NOVALIS
in “Henrique de Hofterdingen”
(trad. de Luiza Neto Jorge)



“Bem-aventurado aquele que se tornou sábio, que já não especula sobre o mundo e busca em si mesmo a Pedra da Sabedoria eterna. Somente o sapiente é digno de ser adepto – ele transmuta tudo em vida e ouro, sem precisar de elixires. A retorta sagrada nele exala – o rei presente nele está – Delfos também; e finalmente ele compreende : Conhece-te a ti mesmo.”
                                               

sexta-feira, 8 de março de 2013

Vasco Graça Moura sobre o Acordo ortográfico

Assine e divulgue a ILC contra o acordo ortográfico, aqui: http://ilcao.cedilha.net/

ACORDO ORTOGRÁFICO: O CADÁVER ADIADO - artigo publicado no início de 2013 no DN


 
No Brasil, tratava-se fundamentalmente de sacrificar o trema e o acento agudo em meia dúzia de casos. E ninguém se resignava às regras absurdas de emprego do hífen... Com isso, bastou o abaixo-assinado de uns 20 mil cidadãos para se adiar a aplicação de uma coisa trapalhona denominada Acordo Ortográfico (AO). Os políticos ouviram a reclamação, estudaram-na e assumiram-na, e a sr.ª Rousseff decidiu.
Em Portugal, o número de pessoas que tomaram posição contra o AO já ultrapassava as 120 mil em Maio de 2009. Hoje, e considerando tanto o Movimento contra o AO de então como a actual Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) com a mesma finalidade, esse número é incomparavelmente mais elevado.
Portugal bem pode propor a todos os quadrantes ideológicos e parlamentares da sua classe política que se assoem agora a este cruel guardanapo.
Faltou-lhes a coragem de respeitar as opiniões autorizadas, a capacidade de reflectir com lucidez sobre o assunto, a vontade cívica de se informarem em condições.
Acabaram a produzir este lindo serviço, com a notável excepção do relatório Barreiras Duarte, aprovado por unanimidade na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (Abril de 2009), mas que não teve qualquer efeito prático.
A CPLP, ao engendrar o torpe segundo protocolo modificativo do AO, violou sem escrúpulos o direito internacional e traiu a língua portuguesa. Não serve. Mostrou total inconsciência, incompetência, incapacidade e oportunismo na matéria.
Agora, é evidente que, de três, uma: ou o Brasil vai propor uma revisão do AO, ou tratará de a empreender pro domo sua sem ouvir os outros países de língua portuguesa, ou fará como em 1945, deixando-o tornar-se letra morta por inércia pura e simples.
No primeiro caso, mostra-se a razão que tínhamos ao insistir na suspensão do AO, a tempo, para revisão e correcção. A iniciativa deveria ter sido portuguesa e muitos problemas teriam sido evitados.
No segundo caso, mostra-se além disso que continuamos a ser considerados um país pronto a agachar-se à mercê das conveniências alheias. Com a desculpa, a raiar um imperialismo enjoativo, da "unidade" da língua, em Portugal haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver quanto à sua própria ortografia. Foi o que se passou em 1986 e 1990.
No terceiro caso, mostra-se ainda que ficaremos reduzidos a uma insignificância internacional que foi criada por nós mesmos.
Mas, em qualquer dos casos, a situação será muito diferente da actual.
O Acordo Ortográfico não ficará incólume e as suas regras serão revistas e modificadas. Ninguém esconde no Brasil esta necessidade de revisão e correcção, tão cultural, social e politicamente sentida que está na base do adiamento decretado.
Se as regras vão ser modificadas, e quanto a este ponto não pode subsistir qualquer espécie de dúvida, será um absurdo absoluto que se mantenha a veleidade de as aplicar em Portugal na sua forma presente.
Não se pode querer contestar oficial ou, sequer, oficiosamente a existência de três grafias, nada menos de três, como resultado grotesco de uma tentativa sem pés nem cabeça de uniformização delas em todos os países que falam português: a brasileira, a angolana e moçambicana e a irresponsável que é a portuguesa.
Torna-se imperativo o reconhecimento oficial de que a única ortografia que está em vigor em Portugal é a que já vigorava antes das desastrosas pantominas que foram empreendidas pelo Governo Sócrates.

No meio desta vergonha, o mais simples é:
a) reconhecer-se que o AO nunca entrou em vigor por falta de ratificação de todos os estados signatários; pressuposto essencial da sua aplicação que é o vocabulário ortográfico comum que nem sequer foi iniciado;
b) suspender-se tudo o que se dispôs em Portugal quanto à aplicação do AO, nomeadamente no plano das escolas, dos livros escolares e dos serviços do Estado;
c) tomar-se a iniciativa de negociações internacionais com vista a uma revisão e correcção do AO por especialistas dignos desse nome.

O Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita... Logo à nascença, já era um cadáver adiado. Com vénia de Fernando Pessoa, agora não se pode deixar que, sem a necessária revisão, ele procrie seja o que for.
 
Vasco Graça Moura in Diário de Notícias

quinta-feira, 7 de março de 2013

Memória de S. João de Deus (8 de Março de 1495 - 8 de Março de 1550)

Vida de São João de Deus,  santo português         
                                                                                                                                                                   by Murillo
CRONOLOGIA:

1495 Nasce S. João de Deus (João Cidade) em Montemor-o-Novo – Évora.
1503
Deixa a sua casa e fixa-se em Oropesa (Espanha).

1520 Morre o seu Pai num convento em Lisboa.
1523
Combate no Exército de Carlos V, na reconquista aos franceses de Fuenterrabia, nos Pirineus.

1524
Regressa a Oropesa.

1532
Novamente soldado. Agora em Viena contra os turcos.

1533 Regressa a Montemor-o-Novo. Segue para Sevilha.
1535
Dirige-se a Ceuta (portuguesa); trabalha na fortificação da cidade e ajuda uma família em extrema necessidade.

1538 Volta a Espanha e vende livros em Gibraltar. Transfere-se depois para Granada onde abre uma pequena livraria.
1539
Em 20 de Janeiro, durante o sermão da festa de S. Sebastião passa por uma crise de conversão que o leva ao hospital, dado como louco.

1539
No Outono funda um hospital na Rua Lucena.

1546 Recebe os primeiros discípulos: Antão Martin e Pedro Velasco
1547
Transfere o seu hospital para um edifício maior, antigo convento, na Encosta de Los Gomeles.

1548 Vai a Valladolid à corte pedir auxílio ao Príncipe Filipe (II).
1549 Salva os doentes do Hospital Real incendiado.
1550 A 8 de Março morre na Casa dos Pisas, em Granada.



   João nasceu na cidade de Montemor-o-Novo (Évora, Portugal), em 1495. Com oito anos de idade, juntamente com um clérigo que pernoitou em sua casa, foi para a Espanha e fixou-se em Oropesa (Toledo) ao serviço da família de Francisco Cid Maioral, que se dedicava à criação de gado. Acompanhado por essa família decorreu quase a metade da sua vida. João foi pastor durante quase vinte anos. Todos apreciavam o seu trabalho. Durante esse tempo foi amadurecendo o verdadeiro sentido da sua vida, passando pelas vicissitudes próprias da adolescência e juventude. Por duas vezes saiu de Oropesa e ambas para integrar contingentes militares. Em 1523 deslocou-se até à fronteira com a França, em Fuenterrabía. Nesta experiência, porém, não se saiu muito bem e chegou a estar condenado a morte. Regressou a Oropesa, vencido. Em 1532 seguiu para Viena (Áustria) para combater os Turcos. E já não voltaria mais a Oropesa. Ao regressar de Viena, de barco, entrou na Espanha pela Galiza, visitou o santuário de S. Tiago de Compostela e dirigiu-se à sua terra natal, Montemor-o-Novo, onde teve notícia da morte dos pais e não encontrou quase ninguém conhecido. Sentiu então, fortemente o chamado a seguir Jesus Cristo, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Convidado a ficar, preferiu seguir de novo para Espanha, sem rumo definido, mas inquieto. Ficou alguns meses em Sevilha, depois Ceuta e Gibraltar, finalmente, Granada, onde se estabeleceu como livreiro.
Vendia livros de cavalaria, mas também de conteúdo e caráter religioso, pelos quais cobrava mais barato. Em 1537, escutando um sermão de S. João de Ávila no eremitério dos Mártires, sentiu-se profundamente tocado… saiu do eremitério aos gritos, dizendo-se grande pecador, atirando-se no chão e, destruiu a sua livraria… Escolheu como guia espiritual S. João de Ávila. Foi em peregrinação ao Santuário da Virgem de Guadalupe, onde aproveitou para aprender algumas técnicas para cuidados básicos de saúde na escola de medicina dos monges e no regresso, passou por Baeza, onde permaneceu com o seu Mestre durante algum tempo. Depois voltou novamente para Granada, onde iniciou a sua atividade de ajuda aos pobres, doentes e necessitados, fundando um hospital bem diferente dos existentes. Começou do nada. Na cidade, todos pensavam que se tratava de uma nova forma de loucura. Mas, aos poucos compreenderam a sua verdadeira sensatez.
Trabalhava, pedia esmolas, recolhia os pobres, dedicava-se a eles… De início, sozinho; depois, progressivamente, foram unindo-se a ele outras pessoas, voluntários, benfeitores e os primeiros discípulos. Era muito original a maneira como pedia esmola, utilizando a expressão: “Irmãos fazei o bem a vós mesmos, ajudando aos pobres”. Foi pioneiro na história da humanidade ao separar os doentes por patologia e ao dar um leito para cada paciente. Foi um profeta da caridade.
Aos 43 anos vivia na cidade de Granada, tocado por Deus e pela situação de abandono e marginalização que viviam os pobres e os doentes, deu uma virada radical em sua vida e passou da compaixão à ação. Interiorizou a convicção de que qualquer mulher e qualquer homem eram seus irmãos e passou a viver para todos os que precisavam: “chagados, tolhidos, incuráveis, feridos, desamparados, tinhosos, loucos, prostitutas, mendigos, andarilhos, órfãos, pobres envergonhados… todos, aqui, tem um lugar” dizia João em uma de suas cartas.
    Por volta do ano 1539 fundou um hospital, inovador para a época, ao qual deu o nome de “Casa de Deus”, já que em cada paciente via o próprio Cristo. Nesta casa eram acolhidas todas as pessoas, sem distinção. Com a colaboração de alguns companheiros que se juntaram a ele, organizou a assistência conforme considerava que os pobres mereciam. O povo vendo tanta bondade nele começou a chamá-lo João de Deus, o Bispo de Tuy vendo que era verdade o que sobre João diziam, lhe mudou o nome de João Cidade para João de Deus. Convidava as pessoas a fazer o bem a si mesmas ajudando aos que mais precisavam, pois estava convicto de que quando alguém faz o bem aos outros é para si mesmo o bem maior. João de Deus pronunciava estas palavras com a autoridade de quem tinha feito a experiência. Ele se sentia o menor de todos e era feliz por sê-lo. Com a coragem dos profetas e uma postura de não-violência, denunciou as injustiças sociais, desmandos morais e a desumanização dos cuidados em hospitais. Foi voz para os fracos e excluídos em meio a uma sociedade marcada pelo egoísmo, fanatismo religioso e muitas injustiças. Resumimos a sua postura de acolhimento integral às pessoas com a palavra HOSPITALIDADE .
 
   Ela era misericodiosa, solidária, holística, criativa, profética e geradora de seguidores. Sua hospitalidade não conhecia fronteiras. Seu estilo atraiu muitos discípulos. Estes, ajudados por muitos, continuaram e ainda continuam o seu trabalho. Fundaram outros hospitais, embarcaram em muitas missões. Em 1572 o Papa reconheceu-os como Instituto Religioso para o carisma da Hospitalidade, considerando que, “era a flor que faltava no jardim da Igreja”. Hoje, os Irmãos de São João de Deus estão presentes nos cinco continentes em 50 países, com cerca de 300 obras apostólicas. São João de Deus é o patrono dos doentes, dos hospitais e dos enfermeiros. No dia 8 de Março de 1550, de joelhos, entregou a sua alma a Deus. Tinha nas mãos um crucifixo. Morreu como tinha vivido: de joelhos perante Deus, abraçando a cruz redentora de Cristo. João de Deus soube arriscar tudo pela causa que servia. Arriscou a saúde, a fama, a vida! A sua festa celebra-se no dia 8 de Março.
    É sabido que São João de Deus fazia o bem a todos quanto pudesse e até o que não pudesse. Seus inscritos e suas cartas relatam que ele se endividou a fim de poder acolher a todos que necessitassem e não lhes deixar faltar nada. Pedia esmolas dia e noite e dedicava a sua vida inteiramente ao próximo. Algumas histórias são contadas por terem um teor inusitado. Estão a seguir:
 
O MENDIGO QUE NÃO ERA POBRE:
    Ocorreu que um homem, desconfiado de João de Deus e da “loucura” com que dizia levar a sua vida – porque para muitos trata-se de verdadeira loucura abandonar a própria vida em favor dos outros – quis testar a João de Deus para saber se ele realmente usava as esmolas que conseguia para cuidar dos pobres. Ao ver João de Deus aproximar-se pelo caminho, deu-lhe uma esmola. Saiu dali apressadamente, vestiu-se de mendigo a fim de lhe testar a caridade e foi para a beira do caminho solicitar ajuda a São João de Deus. Qual não foi a surpresa do homem quando João de Deus tirou dos bolsos tudo o que tinha e entregou-lhe tudo sem hesitar. Com isso, o homem converteu-se, aderiu a causa do Santo e passou a ser Colaborador de sua obra.
 
AS CORTINAS QUE ALIMENTAM OS POBRES:
   Certo dia, chegando João de Deus a casa de um rico, percebeu ele que as janelas de sua casa possuiam belas cortinas. Todas elas aveludadas e grossas. É sabido que na Espanha, assim como em toda Europa, os invernos são muito rigorosos e milhares de pessoas acabavam morrendo de frio por serem muito pobres. Os mesmos pobres os quais cuidava São João de Deus. Observando aquilo, João de Deus disse ao homem que enquanto as janelas de sua casa eram cobertas por cortinas luxuosas, com tecidos finos, os seus pobres morriam de frio por falta de roupas. O homem sentiu-se tão envergonhado com tal comentário, que mandou que fossem retiradas todas as cortinas da casa e serem entregues a João de Deus. Ao recebê-las, João de Deus agradeceu-lhe. E imediatamente perguntou ao homem se não gostaria de comprar as tais cortinas, pois estava precisando de dinheiro para os pobres.
 
ORAÇÃO A SÃO JOÃO DE DEUS  Senhor, que inflamastes São João de Deus no fogo da caridade para que fosse na terra o Apóstolo dos pecadores, Socorro dos pobres e Saúde dos doentes; no céu o constituístes Alívio dos que sofrem, Padroeiro e Modelo dos profissionais de saúde. Concedei-nos, por sua intercessão, a graça que neste momento vos pedimos, prometendo imitá-lo nas suas virtudes, na construção do Vosso Reino de Paz, Justiça, Amor e Misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.

Alasdair!


                                                            Alasdair Roberts 

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Pássaros




quarta-feira, 6 de março de 2013

Texto de Pedro Sinde

A flor da Saudade é a Açucena

Pedro Sinde


Lilium Album. The book of plants, Basilius Besler

Quem assim o diz é Isidoro de Barreyra, um desses monges secretos que Sampaio Bruno tanto gostava de repescar, perdido no labirinto estreito de uma qualquer biblioteca. O livro em que o diz tem o seguinte cativante título: Tratado das significaçoens das plantas, flores, e fruttus, que se referem na sagrada escrittura, tiradas de divinas, e humanas letras, com suas breves considerações.
Isidoro de Barreyra, foi monge da Ordem de Cristo em Tomar, no Convento de Cristo. Este livro interessantíssimo é de 1622. Também Camilo o refere a propósito da Saudade.
Os saudosistas deviam atentar neste facto interessante que é o de haver uma flor que é o símbolo da Saudade.
Se seguirmos atentamente a explicação de Isidoro de Barreyra veremos que há ali uma cifra. Em primeiro lugar o monge começa por nos apresentar a Açucena na sua significação bíblica como símbolo de pureza. Aparece, por essa razão, ao lado da Virgem nas representações da anunciação. De seguida, muda o discurso e, ao contrário do que acontece no resto do livro, refere a significação da Açucena "entre nós", pressupõe-se que querendo dizer entre os portugueses, mas pode ter outra significação mais funda.

Ora, entre nós, a Açucena significa não a pureza, mas a Saudade. A justificação que o monge dá para isso é muito interessante, sobretudo porque não é exacta. Quer dizer, Isidoro de Barreyra explica que a Açucena tem a característica de florir mesmo quando cortada ou arrancada da raiz e colocada num recipiente com água. Ora, isto é exacto, o que não é exacto é que a Açucena seja a única flor com esta propriedade e se essa é a razão para que seja ela a simbolizar, em vez de outra, a Saudade, então há aqui um erro estranho. É por esta razão que me parece que aqui se esconde qualquer coisa de muito importante e que eventualmente estaria ligado com a Ordem de Cristo naquela altura. Um observador tão fino, como era Isidoro de Barreyra, nunca cometeria um erro tão grosseiro; o erro é uma cifra. Do meu ponto de vista, Isidoro de Barreyra está a cifrar algo muito importante ligado à tradição portuguesa e à Ordem de Cristo. A forma pela qual ele apresenta o assunto ali no livro, dá a entender que a Açucena representa exotericamente a pureza na iconografia Católica, mas esotericamente representa a Saudade, na tradição portuguesa. Isidoro de Barreyra diz assim: "E ainda que muitos attribuão isto à puresa da Virgem, com tudo segredo tem pintaremse as Cessens [Açucenas] só neste mysterio, & não em outros."
 

terça-feira, 5 de março de 2013

Sistine Chapel in 3D / Capela Sistina em 3D

Ao Senhor dos Mundos - poema

»Ao Senhor dos Mundos«  
                                           
                                                                                             
Senhor Deus da Luz, seja concedido
Que num ponto concentre o sol difuso
Neste meu ser inquieto e dividido
Onde, se olho, é só treva e caos confuso.
Toda essa luz esparsa o mago fuso
Do pensamento a busca, em si perdido,
E o fio de oiro ao acaso recolhido
Quebra-se contra o ser opaco e ocluso.
Concentre-se a luz num ponto! Dá-me a lente
Com que punha, em criança, a arder a palha
E fazia um incêndio grande e ardente!
Dá-me o poder da Fé, puro e sem falha!
De uma fé que se move e pensa e sente
E ouve dizer baixinho: “Deus nos valha!”
António Telmo










segunda-feira, 4 de março de 2013

Ladies & Gentlemen, A l a s d a i r R o b e r t s

                                                        ...............B e a u t i f u l  S o n g ............................
»Dighty Burn«
 
 
Alasdair Roberts
» The year of the burning «
 
 
 
Alasdair Roberts - » When A Man's In Love He Feels No Cold «  
 
 
 

Um poema de Giacomo da Lentini

   O doce stil nuovo é claramente debitário da lírica trovadoresca que floresceu em Provença a partir do século XII: nomes como Bertrand de Born, Arnaut Daniel, Bernart de Ventadorn, Giraut de Bornelh e Sordello, dentre outros, são citados por Dante Alighieri em algumas de suas obras. Algumas características fundamentais desse grupo migrariam para a Itália a partir do começo do século XIII, e aqui cito alguns: a) o uso da língua vulgar (langue d’oc, langue d’oil, língua do sì; b) a ligação com a música e formas musicais, como baladas e canções (canzone, derivada da cansò provençal); c) o interesse pela rima como recurso estrutural; e d) diversas temáticas, como a joi diante dos favores da midons (madonna), que engloba muitas vezes uma função alegórica que ultrapassa o sentido meramente erótico dos poemas.
   Dentro dessa história da lírica vulgar italiana, é importante notar a importância do adjectivo nuovo no doce stil nuovo – essa é a característica fundamental no movimento, que implica em seu próprio nome uma tradição lírica já florescente na Itália. Essa história não é tão simples quanto a historiografia e os desenhos cronológicos possam tentar demonstrar; e aqui eu gostaria de fazer uma pequena contribuição às leituras brasileiras sobre o assunto da lírica amorosa no século XIII italiano, com um brevíssimo esboço e duas traduções de poetas que, até onde eu saiba, pouco chegaram ao português.
   A primeira escola poética italiana de renome é a siciliana, em torno de Giacomo da Lentini (ou Jacopo da Lentini, circa 1210-1260); a históri atribuiu-lhe a invenção do soneto, na primeira metade do séc. XIII; e por isso apresento em tradução um dos seus sonetos mais famosos:
 
 
Resolvi no meu peito a Deus servir,
para poder chegar ao Paraíso,
ao santo espaço em que se diz convir
estável alegria, jogo e riso.
 
Sem minha amada não quisera eu ir,
da tez mais branca e loira que preciso;
pois sem ela, nem gozo, nem sorrir,
se acaso desta amada me diviso.
 
Isso não digo pelo pensamento
de que assim desejasse mais pecar;
mas para ver seu belo encantamento,
 
sua bela tez e a paz em seu olhar:
então teria um tal contentamento
se visse minha amada ao Céu se alçar.
 

Miriam Makeba

                                                                                    Recorded at Berns, Stockholm in 1966

                                                                        
                                                    No dia do seu 81º. Aniversário

domingo, 3 de março de 2013

Fernando Pessoa (1888-1932)

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
por Alberto Caeiro
Escrito em 4-3-1914.


Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas                       
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


 
A morte é a curva da estrada
 
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).- 142.

Escrito em 23-5-1932

                                                                                 F. Pessoa por Almada Negreiros


A morte é a curva da estrada,         
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.
 

Um prédio na Rua dos Fanqueiros - Lisboa

 © Nuno Castelo-Branco



sexta-feira, 1 de março de 2013

Frida Kahlo


A resignação de Bento XVI

As palavras da renúncia de S.S. o Papa Bento XVI


«Caríssimos Irmãos,



    Convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice. Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.
 
Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.»
 
  Com efeito, tal já veio a suceder ontem. Entrou-se agora em período de 'sede vacante', período em que o governo da Igreja como que está imobilizado, aguardando-se os preparativos e a data de realização do Conclave, que se vai seguir.
Do Conclave, não sabemos o que esperar. O próximo Papa, provenha ele de onde provir, deverá ser relativamente jovem. Espera-o um grande trabalho de limpeza e renovação da Curia e, provavelmente, duras provações. Mas a barca está habituada a todo o tipo de mares, desde os calmos, aos revoltos e tempestuosos. Aguardemos os próximos capítulos.
 
 
 
 William Turner , Fishermen at Sea
  A barca da Igreja

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

De Paulo Mendes Campos


PAULO MENDES CAMPOS
Nasceu em Belo Horizonte em 1992 (28 de Fevereiro)  e faleceu 1991. Poeta e cronista, dos mais notáveis das letras brasileiras. Merece ser relido sempre pelas novas gerações pela qualidade de seus textos. Aqui vai apenas uma pequena mas significativa mostra de seu enorme talento: dois poemas escolhidos de seu livro Testamento do Brasil e O Domingo Azul do Mar , publicado pela Editora do Autor, em 1996, no Rio de Janeiro.
   
CANTIGA PARA DJANIRA
 
O vento é o aprendiz das horas lentas,
traz suas invisíveis ferramentas,
suas lixas, seus pentes finos,
cinzela seus cabelos pequeninos,
onde não cabem gigantes contrafeitos,
e, sem emendar jamais os seus defeitos,
já rosna descontente e guaia
de aflição e dispara à outra praia,
onde talvez enfim possa assentar
seu momento de areia — e descansar.


 
 
 


NESTE SONETO
 
Neste soneto, meu amor, eu digo,
um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
que muita coisa bela o verso indaga,
mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
minha emoção é muita, forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
umas palavras brandas, entretanto,
não sei caber as falas de meu canto,
dentro da forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
das emoções do céu e das terrestres.

Saint-Saëns

Danse Macabre

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cesário Verde

Cesário Verde
(25 de Fevereiro de 1855 — 19 de Julho de 1886)

 

«Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longínqua flauta.Se eu não morresse, nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!»

Van Gogh

Ciprestes, Amendoeiras floridas e Starry Night, respectivamente
                                                                          
                                                               
                     

                                                                                                      
 


O novo Bowie

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Bossuet

“No Egipto, as bibliotecas eram chamadas ‘Tesouro dos remédios da alma’. De facto é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

- Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704)
Bíblia dos Jerónimos                                                

Lembrança de João Silva Tavares

J. S. Tavares e Alfredo Marceneiro

Dramaturgo, Poeta e Escritor

Nasceu em Estremoz a 24 de Junho de 1893, onde passou a sua infância e parte da adolescência. Aos 13 anos descobre-se poeta, tendo publicado o seu primeiro livro de versos Nuvens aos 18 anos.
A sua vida literária virou-se predominantemente para a poesia, mais de quatro dezenas de obras poéticas publicadas. Mas também dedicou muito do seu tempo e imaginação ao teatro. Escreveu mais de nove dezenas de peças, entre dramas, comédias e farsas. Mas foi no teatro ligeiro (opereta e revista) onde melhor se encontra, pelo tom popular que empresta a quase tudo o que escreve. Na sua vasta obra assinalamos ainda duas novelas, algumas crónicas, estudos históricos e biografias.
Foi durante cerca de trinta anos chefe da Secção de Coordenação de Programas da Repartição dos Serviços de Produção da Emissora Nacional. Aqui desenvolveu intensa actividade, dinamizando programas ligados à poesia e ao teatro. No seu testamento deixou como legado à Biblioteca de Estremoz mais de uma dezena de manuscritos das suas obras, um bronze, uma tela e as insígnias das condecorações com que foi distinguido.
Embora haja quem não dê grande destaque à sua obra para o Fado, ele foi um grande poeta, com alma bem fadista, lembremo-nos de algumas das suas criações, que foram grande êxito para os repertórios de Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro.
Para Amália Rodrigues, Céu da Minha Rua, Elogio do Xaile, Que Deus me perdoe, etc.
Para Marceneiro, A Casa da Mariquinhas, Mariquinhas 50 Anos depois e Fado da Balada.
João Silva Tavares morreu em 3 de Junho de 1964.
 
Canta Alfredo Marceneiro poema de João Silva Tavares: