quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Sohrab Sepehri, Endereço

Bukhara, Uzbekistan


ENDEREÇO                                                                      

“Onde fica a casa do amigo?”  Era alvorada quando o cavaleiro perguntou.
O céu fez uma pausa.
O passante tirou o ramo de luz que trazia nos lábios, ofereceu para a escuridão das areias,
com o dedo apontou um álamo e disse:

“Antes da árvore
tem uma alameda que é mais verde que o sono de Deus
e lá o amor é um azul igual ao das penas da sinceridade.
Siga até o fim dessa rua, que vai dar atrás da adolescência
e então dobre em direção da flor da solidão.
A dois passos da flor
fique ao pé da fonte dos mitos eternos da Terra
e um medo transparente vai lhe dominar.
Na intimidade que flui no espaço, ouvirá um ruído:
verá uma criança
que subiu num pinheiro alto para apanhar um filhote no ninho da luz.
E então pergunte a ela
onde fica a casa do amigo.”

Tradução de Nasrin Haddad Battaglia – abril, 2012

Sohrab Sepehri foi um famoso poeta e pintor iraniano. 
Nasceu na cidade de Kashan e é considerado um dos 5 maiores poetas persas modernos. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

LOU REED, um adeus na sua morte

»satellite of love




»perfect day



Rock Dreams: Guy Peellaert (1974)                                    
                                                                                   

domingo, 27 de outubro de 2013

Dylan Thomas, de quem passa hoje o Aniversário de Nascimento

Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914, passando hoje o seu 99º Aniversário de nascimento. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim de seus dias aos 39 anos, mas, ainda teve tempo de nos deixar um legado poético que o tornou um dos maiores influenciadores de toda uma geração de escritores."

“To begin, at the beginning...” 
― Dylan Thomas, Under Milk Wood

.
POEMA DE OUTUBRO

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã
Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela
E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.
E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.
.(tradução: Ivan Junqueira)




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Autumn Trees, Ferdinand Hodler e poema de Georg Trakl

Canto dum Melro Preso
a Ludwig von Ficker

Hálito escuro na verde ramaria.
Florinhas azuis pairam em volta da face
Do solitário, fazendo morrer o passo
Dourado sob a oliveira.
Levanta voo a noite em asa ébria.
Tão baixo sangra humildade,
Orvalho, que manso goteja do espinheiro em flor.
Compaixão de braços radiosos
Abraça um coração que quebra.


(Georg Trakl, in Poemas. Trad.: Paulo Quintela)


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Faisão pousado em ramo de prunus

Um faisão pousa entre ramos floridos. Esta é uma representação aproximada do que o Homem supõe ser o jardim do Paraíso. 

Abre no dia 25, uma exposição que propõe uma viagem pelo mundo do azulejo.

#azulejo #Gulbenkian #Museu   Museu Gulbenkian, Lisboa

Legenda: Azulejo turco, com faisão pousado em ramo de prunus,
séc. XVI - © Cité de la Céramique, Sèvres



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Assine e divulgue esta petição contra a aplicação do Acordo Ortográfico

Adira ao grupo no facebook "Em acção contra o Acordo Ortográfico" (http://www.facebook.com/groups/emaccao). Precisam-se assinantes nesta causa, que já conta com cerca de 9900 assinaturas. Assine a petição clicando no link abaixo e divulgue-a:

http://www.peticaopublica.com/pview.aspx?pi=DPAO2013


Alasdair Roberts, The Merry Wake

De Solivan Brugnara, grande poeta brasileiro contemporâneo


Um belíssimo, poderoso poema e subtil homenagem a Lorca 

Autopiedade 

Vinte três facas de prata em meu coração.
Vinte três cantos de minha dor.
E eram as três de la tarde. 
E eram as três da la tarde.
Vinte três raios em meu coração. 
Vinte três vez

es implorei pela morte
de joelhos dobrados.
E eram as três da la tarde.
Vinte três crisóis de magna em meu coração.
Vinte três cascavéis que me odiavam aninhadas em meu peito.
E fui carregado pelos meus pés e mãos de bronze
como as alças de um caixão.
E manchei com gritos os ouvidos de meu irmão
e eram três de la tarde.
Vinte três leões rubros mastigavam meu coração.
Vinte três piranhas nadavam dentro de mim.

Madre minha, madrezita,
vi teus olhos desolados como o céu azul
sobre os ciprestes.
Filho meu,
vi teus olhos assustados e quis afagar teus cabelos,
mas meus braços estavam mortos
e eram as três de la tarde.

Vinte três mil tocandiras em trançados de caranã envolverão meu coração.
Vinte três enxames de vespas ferroaram minha carne.
E bebi um cálice de morfina com água de miragem
e eram três de la tarde.                                             
     

Porém uma garça branca pousou sobre meu peito
e disse fica.
E as sirenes ganiram,
e mãos cuidaram de mim
como pomba delicada cuida de seu ninho.
Mas na gruta de mármore negro havia números nos olhos do jaguar
e meus sinais vitais gotejavam irritantes por toda a noite
e no meu braço agulhas frias                                              
moldadas com caninos de vampiros
e na minha boca um gosto de alecrim e metal.
Os mortos sentem em sua boca um gosto de alecrim e metal.
Então levantei no terceiro dia
e vi o sol puro e uma banca de jornal,
vi as moças bonitas
e sorri,
mesmo com passos de quem passeia
em um campo minado jardinado com açucenas,
e eram as três de la tarde.

Solivan Brugnara, grande poeta brasileiro contemporâneo

Biblioteca Joanina de Coimbra

Duas das dezasseis mais espectaculares bibliotecas em todo o mundo, são portuguesas. Confira aqui

http://www.telegraph.co.uk/culture/books/10382588/The-most-spectacular-libraries-in-the-world.html?frame=2705752

Biblioteca Joanina de Coimbra


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Publius Vergilius Maro, nasceu neste dia 15 Outubro, há 2.083 anos

 2.083 years ago, Publius Vergilius Maro, better known as Virgil, was born near Mantua.

“Mantua me genuit, Calabri rapuere, tenet nunc Parthenope; cecini pascua, rura, duces.“ ("Mantua gave birth to me, the Calabrians took me, now Naples holds me; I sang of pastures [the Eclogues], country [the Georgics] and leaders [the Aeneid]“ – epitaph on Virgil’s tomb near Naples)

Augustus made a city of marble out of Rome’s bricks, based on the foundations of the late Republic. And if poets like Horace, Propertius, Tibullus and Virgil from Maecenas’ and Mesallas’s circles are counted among the beacons of flourishing Augustan literature, the same would be true, since all of them began their careers before the Triumvirate was formed and the Republic of bricks was still in existence. Especially Maecenas made his mark in mentoring and promoting auspicious artist up to a point that his name is to this day synonymous with being a patron of his arts. The age, in the mirror of its poets, saw itself as an Apollonian era, shaped by light and art and wisdom and the Emperor himself commissioned not only temples for the god, one, significantly, at Actium and the other in his estate on Palatine Hill but even tried his hand at epic poetry but finally had to acknowledge that his talents lay elsewhere, his “Ajax”, he said, met with a sponge. Virgil though gave Rome something of a national epic with his Aeneid.

What we know about Virgil is handed down by and large by the empire’s equivalent to the yellow press, Sueton, garnished by jibes from Ovid, passing remarks from Horace and literary critics writing more than 150 years after his death. They all draw a rather unappealing picture of Virgil, the son of a potter whose rhetoric was so miserable that it left the impression of a completely uneducated man, paired with his rustic appearance, open boots, unpressed toga and a peasant’s haircut. Nonetheless, his Eclogues, Rustics and, above all, the Aeneid became books read in school pretty soon. Especially the latter, the epic story of the Trojan hero Aeneas, son of Venus, who escaped the fall of his city and became forefather of the Romans, gave Virgil’s contemporaries after decades of bloody civil war a common denominator and an attempt of endowing the conflict with a meaning as a necessity for the establishment of the Augustan Peace. An image only a bit tarnished through few critic passages and the fact that Virgil probably died before he could finish his most prominent work.

After his death from a fever in 19 CE at the age of 50, and a comprehensible honouring as a Roman national poet, Virgil’s works are preserved in two richly illustrated manuscripts from late antiquity, his veneration sometimes materialised in rather weird forms. The Aeneid was already used in as a kind of Roman I Ching in Hadrian’s days by picking lines at random and elaborating a divination, a tradition perpetuated in the Middle Ages. Medieval Christianity saw the fourth eclogue with an allusion to the pregnancy of Augustus’ wife Scribonia as a prophecy of the birth of Christ, verifying the pagan poet as a prophet and holding him in the same high regard as Aristotle – up to the point that various Virgil-legends emerged where the poet appears as a mighty magician – or as the psychopomp of Dante in the Underworld in his Divine Comedy. 

Depicted below is a mosaic showing Virgil sitting between the muses Clio and Melpomene (3rd century CE, Bardo Museum, Tunis)

More on:

http://en.wikipedia.org/wiki/Virgil


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Photo by Ron Gaut, 2011



Weston Tree Yosemite. Edward Weston first photographed this Juniper in 1935. I was attending a workshop with John Sexton , Anne Larson and Charles Cramer and they led us to this spot. Someone brought a copy of Weston's photo for comparison and surprisingly, the Juniper had changed little in 78 years!



Al azar, Baltazar - Robert Bresson

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Palmyra, na Síria, um sítio arqueológico sob o fogo das armas

Palmira, na Síria, um local arqueológico sob o avanço dos tanques e armas. Sem palavras.
 
 
Palmyre : Présence d’armes et d’engins de guerre dans la zone archéologique
تدمر : اليات ثقيلة في الحرم الأثري لمدينة تدمر
Palmyra : Multiple rocket launcher and tank positioned in the archaeological area of the ancient site of Palmyra.
 
 
 
 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Natércia Freire »Poema de Amor«

NATÉRCIA  FREIRE - Natércia Freire nasceu em 1919 em Benavente, no Ribatejo. Em 1991 e 1995 editou a sua obra poética completa sob a chancela da Imprensa Nacional/ Casa da Moeda. Morreu no dia 17 de Dezembro de 2004.

POEMA DE AMOR 

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de água vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.



Herberto Helder (Excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
 
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
 
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

 que te procuram.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Borodin String Quartet

caixa de música









Initiation de PHIL THORNTON


Estou de volta.

A partir de agora, a minha participação no blogue será mais esporádica, isto é, sem me
sentir obrigado a vir aqui todos os dias. Ficará ao sabor da ocasião e da vontade.




                                                        

Adão e Eva


Adão e Eva

Esquerda: Albrecht Dürer, Adão e Eva, gravura, 1504.
Direita: Hering Loy, versão em relevo, marfim, 1520-1550 (Museo del Prado)