sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Coleridge e o Kublah Khan


The shadow of the dome of pleasure
 
Floated midway on the waves;
Where was heard the mingled measure
From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome and caves of ice!

Sim, são versos do fantástico, onírico e misterioso poema “Kubla Khan: or a vision in a dream. A fragment” (1797), do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), um magnífico, ainda que fragmentário devaneio lírico, que, segundo o poeta contou, lhe teria aparecido em sonhos, como uma oferta...
Aconteceu assim:
Em 1797 quando vivia em Somerset, em Exmoor, em casa do seu amigo Wordsworth e mulher, numa tarde de verão fumou ópio e adormeceu a ler uma passagem do Purcha’s Pilgrimage, que relata a construção do célebre palácio do Imperador chinês Kubla Khan (1215-1294), -o grande Imperador Mongol que conquistou a China e que
Marco Polo visitou-o, em Shang-tu (Xanadu).
"A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória".

Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kublah.
Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio...” 
Ao acordar desse sono profundo, contou ao amigo que compusera em sonho umas 200 ou 300 linhas sobre esse tema. Sentou-se à mesa e começou a escrever os versos que formam o “fragmento”.

Tendo sido interrompido durante a escrita por alguém –“ a person from Porlock”-, ao retomar o trabalho, descobre que o resto do poema se lhe apagara na mente, desaparecera da memória...
Visões, uma cornucópia de imagens iridescentes, sugerindo outros mundos, o rio sagrado caindo com fragor numa fonte, o palácio do Khan, as cavernas, o “sunless sea”, o interior dos jardins paradisíacos onde surge a luz do sol, a cor.
E uma donzela...
Disso tudo, restam oito ou dez linhas dispersas, o resto dissipara-se “tal como as imagens na superfície de um rio para dentro do qual se atirou uma pedra...”, diz o poeta.
Curioso, fui ler no “actual” manual de Literatura Inglesa (Oxford Concise Companion to English Literature) que actualmente me tem acompanhado, e que recomendo, consultei a net e encontrei alguns “blogs” interessantes.
No blog Afonso Henriques Rodrigues, li um “post” muito bem feito, de 26 de Novembro de 2008, intitulado “O sonho de Coleridge”:




"A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória".
Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla.Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio."
                                                                    Coleridge
 NOTAS:
(*)
" O poeta sonhou em 1797 (outros acham que foi em 1798) e publicou o seu relato do sonho em 1806, a maneira de glosa ou justificativa do poema inconcluso. Vinte anos depois apareceu em Paris, fragmentariamente, a primeira versão ocidental de uma destas histórias universais em que a literatura persa é tão rica, o Compêndio de histórias de Rashid ed-Din, que data do século XIV. Em uma página se lê: "A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória". Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla. Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens e abarca continentes, parecem-me significar nada ou muito para as levitações, as ressurreições e o aparecimento dos livros religiosos. Que explicação preferimos? Aqueles que de antemão rechaçam o sobrenatural (eu trato sempre de pertencer a esse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência, um desenho traçado pelo acaso, como as formas de leões e de cavalos que as vezes configuram as nuvens. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador havia sonhado o palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção que em si aplacasse ou justificasse o truncado e o rapsódico dos versos... "

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